Reflexão para o domingo, 21 de março

Época de Paixão

Referente ao perícope de João 8


Jesus escrevia na terra, enquanto, com insistência, os escribas e fariseus lhe confrontavam com as acusações de adultério cometido por aquela mulher.
O que Ele escrevia?
O texto do Evangelho de João silencia sobre isto.
Podemos imaginar que não se trata de um detalhe sem importância ou de uma atitude de descaso por parte de Jesus em relação aos seus interlocutores. Se Ele quis escrever algo na terra, provavelmente este ato tinha algum significado para Ele.
Mas se alguém escreve na terra, no pó ou na areia, em geral isto é algo efêmero, não pode durar muito…
Neste ponto, podemos começar a nos perguntar, qual teria sido sua intenção ao escrever, e por que escrever na terra?
No final da narrativa ouvimos que Ele não a condena, apenas lhe faz uma advertência:

“… não peques mais!”

Com certeza toda esta situação deve ter ficado profundamente gravada na consciência daquela mulher. Estava na iminência de ser apedrejada e no momento seguinte foi liberada deste castigo, apenas com esta advertência. Tal advertência só faz sentido se o fato que gerou tudo isto não se apagar da sua memória, ou seja, se ficar gravado, registrado na sua consciência. Além disso para não tornar a repetir o mesmo ato, era necessário que algum tipo de mudança e de transformação interna viesse a ocorrer naquela mulher, naquele ser humano, para que, dali para frente, adotasse uma atitude diferente na sua vida.
Cristo parece estar mais preocupado com isto do que com o fato em si e com a necessidade de cumprir a lei.
A lei mosaica era uma lei escrita. No livro do Exodus lemos que Moisés subiu a montanha e retornou com as pedras da lei, onde Deus havia escrito e gravado esta lei.
Isto nos aponta ao aspecto duradouro e imutável que a lei antiga possuía. Até nos dias de hoje, no âmbito jurídico, se fala de “cláusula pétrea” para se referir aqueles artigos da lei que não podem ser mudados: estão como que escritos em pedra.
Os doutores da lei fazem referência a este princípio inflexível, que deve ser cumprido.
Cristo não se contrapõe a isto, mas direciona o foco para a consciência moral de cada um dos ouvintes 

“… quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra”

Suas palavras expressam de certo modo sua atitude: se olhamos apenas para a lei pétrea, nada muda, no final sobrará pedra sobre pedra… mas o ser humano não é um ser pétreo, imutável. O ser humano é feito de outro material.
Retomemos então a imagem da criação: o ser humano foi feito do barro da terra, ou seja, algo mole que se deixa plasmar.
Neste âmbito podemos imaginar que quando Cristo escreve na terra ou no pó exterior o que ele escreveu logo iria desaparecer, mas a sua intenção primeira era “escrever” num lugar mais sutil e ao mesmo tempo mais profundo no ser humano. Ele foi capaz de escrever e de tocar o ser humano em seu interior, em sua consciência moral e a partir daí ajudá-lo a tomar novas decisões na vida. Portanto, sua forma de escrever ganha uma dimensão transformadora.
Cristo nos mostra que é possível “escrever” num lugar onde a memória dos fato pode ficar presente (independente dos registros exteriores) e ao mesmo tempo este lugar possui a força e a dinâmica que podem ajudar o ser humano em seu processo de evolução e transformação.
Eis aqui um magnífico (e difícil) exercício que nos pode motivar a inúmeras reflexões neste período do ano em que celebramos a Paixão.



Renato Gomes