
A tentação – Mosaico da catedral de São Marcos, em Veneza, século XIII
Referente à perícope do Evangelho de Mateus 4, 1-11
Quanto maior a graça, maior a responsabilidade da humanidade em relação ao mundo espiritual. Quanta substância, força e sabedoria o ser humano em sua existência recebeu do mundo espiritual para que se tornasse um ser livre. Muitos ciclos de desenvolvimento, muito tempo se passou até que, na virada dos tempos, a força divina despertou na alma humana.
Nem tudo foi bom nesse desenvolvimento, porque, para se tornar livre, o ser humano teve que separar a sua vida da vida cósmica divina. Foi assim que ele abriu os portões para a atuação do mal, dos seres adversos.
Enfim chegou a hora em que a humanidade deveria tomar o curso do desenvolvimento em suas próprias mãos, a hora de assumir sua própria responsabilidade para o futuro. Para isso, ela teria que enfrentar e superar as forças do mal que até então haviam atuado sobretudo em sua corporalidade, em sua natureza terrena. Em sua alma e espírito o ser humano poderia se tornar livre para superar o mal. Sua natureza anímico-espiritual recém desperta teria que se tornar mais forte do que as exigências puramente físicas, corporais. Mas ela ainda estava muito frágil por dentro.
Foi quando o Pai enviou o Filho ao mundo. O Filho de Deus só conseguiu encontrar uma morada em um ser humano muito especial, para isso preparado. Em Jesus o Filho de Deus encontrou uma morada. O batismo no Jordão pode ser visto como a concepção de um novo ser espiritual, o Filho do Homem, que surgiu pela atuação do Filho de Deus em Jesus, transformando e superando assim sua natureza terrena e transitória.
Depois do batismo, Jesus Cristo foi enviado pelo Espírito para os lugares e situações em que se manifesta o mal. O Filho de Deus pôde superar as tentações, primeiro se confessando a Deus e enfim pelo seu próprio sacrifício na Cruz.
Toda a humanidade pode agora, desde batismo até a ressurreição, testemunhar a transformação da natureza mortal de Jesus, a vitória definitiva sobre o mal e a morte. Assim um germe do espírito foi colocado em cada coração humano, para que seja iluminado pela consciência espiritual individual, para que cresça e evolva. Desde a criação, nenhuma graça maior foi concedida à humanidade!
Essa consciência espiritual vai se formando e se intensificando quando em devoção, na época da Paixão, podemos consumar com Jesus seu ato de sacrifício e amor. A vontade de nos juntarmos a Ele vai crescendo em nós. Nosso coração vai se permeando cada vez mais com sua vida, sua luz e amor. Assim cresce em nós o germe espiritual, a força para, como Ele, aceitar e superar os enormes desafios de nosso tempo. Cresce em nós a disposição para nos confrontarmos com o mal, com os mais profundos e escuros abismos da alma humana para poder levar para lá a luz e a vida da ressureição.
Helena Otterspeer