Reflexão para o domingo, 25 de abril

Época de Páscoa

Referente ao perícope de João 15, 1-27

“O sangue de Jesus tem poder!”

É provável que muitos já tenham ouvido ou lido esta frase em algum lugar…

Recentemente, dirigindo na estrada, ao ultrapassar um veículo me deparei com esta frase na traseira de um grande caminhão.

As sensações e associações que vieram à mente foram muitas, não me foi possível negar também um certo “incômodo”, pois tais assuntos que tocam o religioso, em geral, não me parecem apropriados para traseiras de caminhões… mas será certo?

Havia ainda um bom trecho de estrada pela frente e as reflexões prosseguiram…

No Evangelho que refletimos este domingo encontramos a imagem da videira e dos ramos. Cristo se autodenomina a videira verdadeira e acrescenta que todo aquele que quer ser seu discípulo pode se tornar um ramo desta videira e deve dar bons frutos.

A seiva que flui pelo tronco da videira é a mesma que corre pelos inúmeros ramos. Leva água e nutrientes, retirados das profundezas do solo, que servirão de matéria-prima para a formação dos frutos.

Seguindo a sequência desta analogia, Cristo é quem traz das profundezas do Ser do Pai os “nutrientes espirituais” e os deixa fluir através de seus “discípulos-ramos”, na esperança de que deles surjam bons frutos. Aqui cabe então a imagem do sangue, pois a seiva é para o reino vegetal, aquilo que nos animais e no ser humano é manifesto no sangue.

Prossigamos: Seu Sangue começa a fluir no fluir do nosso sangue, cada vez que nos denominamos Seus discípulos. Exteriormente a imagem não faz sentido, mas se percebemos que este fluir ocorre noutro âmbito, a imagem ganha força e veracidade: Cada vez que lemos, estudamos, interiorizamos Sua Palavra, ela começa a ganhar vida e fluir dentro de nós. A Boa-Nova do Seu Evangelho (a boa notícia, que se transmitiu pela palavra), não deve ser algo abstrato retido no intelecto humano, mas deve tornar-se num elemento vivo e poderoso que flui e transforma a vida daquele que se deixa permear por ela.

“… Eu sou a Videira, vós sois os ramos!”

Eis aí a bela e difícil tarefa de tornar-se discípulo: deixar fluir sua “seiva sangue” em nós que somos os ramos e deste modo, compenetrados com a força da sua palavra, poderemos vir a gerar bons frutos.

Assim chegamos à pergunta central:

Como nos tornamos permeáveis a força da Sua Palavra?

Outros talvez venha a formular esta pergunta de outra maneira:

Como percebemos o poder que flui do Seu Sangue, portador de Sua Palavra?

Neste ponto retornamos à frase de caminhão, mencionada no início.

Às vezes, nós – seres humanos – precisamos percorrer diferentes caminhos para, mais a frente, reconhecer que queríamos chegar a lugares parecidos.

O “incômodo” inicial com a frase do caminhoneiro, se diluiu um pouco e surgiu a sensação de que provavelmente aquele motorista, usando sua própria linguagem, estava tentando dizer a todos que quisessem ler em seu caminhão, algo sobre este empenho genuíno em tornar-se discípulo de Cristo. A limitação era minha em não haver percebido isto…

A videira é única, os ramos podem ser muitos e os frutos serão os mais diversos.

Nestes tempos confusos e contraditórios de pandemia, onde parece que crescem cada vez mais a intolerância e os motivos para nos separarmos e segregarmos dos que pensam diferente de nós, a lição aprendida com aquele caminhoneiro desconhecido, me fez refletir sobre a necessidade de maiores doses de humildade e de boa vontade, se queremos de fato nos tornar ramos desta Videira Verdadeira.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 18 de abril

Época de Páscoa

Referente ao perícope de João 10, 1-18

Ao anunciar: “Eu sou a porta”, Cristo posiciona-se como o ser do limiar. Passagem entre o plano físico e o plano divino espiritual.

Nos primórdios do desenvolvimento da humanidade, nossas habitações não tinham portas. Estávamos imersos na natureza em completa união com os seres espirituais. Passo a passo, fomos nos internalizando. Adentramos cada vez mais nossa morada, criamos limites ao nosso redor, criamos a porta e a fechamos. Este enorme passo evolutivo conteve em si a oportunidade de voltarmo-nos para nós mesmos e desenvolvermos a consciência, porém levou-nos também à suscetibilidade da alma. Estivemos à mercê do ser que ao encontrar as portas fechadas e, estando temporariamente em posse das chaves, trancou-as para que não mais pudéssemos sair à luz do dia, não reconhecêssemos no sol o ser divino que nos supria, nem percebêssemos nos astros os seres divinos. A alma fez-se escuridão, as cortinas cerraram-se e a porta não se abria para o livre ir e vir.
Eis que o Verbo se fez carne e caminhou entre nós!
Ele descerrou nossos olhos, e conclamou: “Levanta-te, vem para fora!”.
As cortinas se rasgaram, as portas se destrancaram e os seres humanos puderam receber o sopro do Divino Espírito Santo; a escuridão do túmulo da alma tornou-se luz no altar da alma. Cristo é a porta que nos leva ao mundo espiritual. Cabe a cada um de nós perceber cada vez mais seu auxílio, descerrar os olhos, levantar, tocar a porta, abrir a porta, ser a porta que nos conduz à “re-união” com o espírito. O Eu sou a Porta aguarda no limiar e nos recebe de braços abertos, de portas abertas.

Viviane Trunkle

Reflexão para o domingo, 11 de abril

Época de Páscoa

Referente ao perícope de João 20, 10-29

“Chega aqui o teu dedo,
e vê as minhas mãos;
chega a tua mão,
e coloca-a no meu lado;
não seja incrédulo
mas tenha fé.“
João 20, 27

Uma ferida provoca dor, e a dor provoca consciência para, muitas vezes, uma parte do nosso corpo que nos é inconsciente. O processo de cura que então se desenvolve é algo maravilhoso. O corpo tem a possibilidade de constituir sua própria integridade. Com o tempo superamos a dor, fecha-se a ferida, o corpo se recompõe. Mas esse processo tem os seus limites. Às vezes o ferimento nos deixa apenas uma cicatriz, mas, se for profundo demais, além da possibilidade de o corpo se recuperar, em casos extremos pode levar até a morte. Mas quando o corpo consegue se recuperar, pode significar para nós mais uma experiência de vida, mais um aprendizado, mais uma possibilidade de amadurecer o nosso ser. Vivenciamos não só os ferimentos em nosso corpo, mas muito mais os ferimentos em nossa alma. No nível anímico, as feridas superadas têm um significado ainda maior para o nosso desenvolvimento. É um conhecimento importante para a nossa vida perceber que não nos desenvolvemos tanto pelas alegrias que passamos, mas muito mais pelos sofrimentos. Aqueles sofrimentos que abalaram o nosso ser, mas perante os quais encontramos esta força maravilhosa de nos reestabelecermos, é o que mais nos ajuda em nosso desenvolvimento. Não somos os mesmos depois de uma crise superada: crescemos interiormente, amadurecemos.
O Cristo Ressurreto, em seu encontro com Tomé, se deixa reconhecer pelas feridas em suas mãos, em seu lado. Tomé toca suas feridas e reconhece-o.
Também nós, muitas vezes, tocamo-nos uns aos outros, em nossas feridas. Isso pode acontecer sem cuidado, com preconceitos e até com alguma má intenção, provocando novamente uma dor. Mas também pode acontecer com carinho, sem julgamento, somente com o impulso de querer reconhecer no outro a sua verdadeira essência, que, em grande parte, é o fruto dos sofrimentos que se passa pela vida.

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 4 de abril

Época de Páscoa

Referente ao perícope de Marcos 16

No domingo de Páscoa a mulheres se perguntaram, quem removeria a pedra da entrada do túmulo. Só quando chegaram, perceberam que a pedra já não estava mais no seu lugar. Elas entraram no túmulo e procuraram o corpo do crucificado para prepará-lo para o sepulcro. Mas ele não estava mais lá. Em profundo luto, ainda voltadas para o fato da morte, elas não conseguiram entender as palavras do jovem: “Ele não está aqui! Ele ressuscitou!” Em temor e fora de si elas fugiram do túmulo. Só mais tarde Maria foi a primeira a reconhecer o Cristo ressuscitado.
Na época da Paixão talvez tenhamos sentido o nosso coração também como um túmulo. Um túmulo frio e abandonado pelo Espírito, como um lugar de solidão e da morte. Essas experiências foram ampliadas neste ano pela solidão do isolamento social, pela tristeza de não celebrarmos o Ato de Consagração do Homem em conjunto e pela consciência do grande número de mortos em todo o país. Podemos  fazer a mesma pergunta como as mulheres: Quem vai tirar a pedra do nosso coração, do nosso túmulo?
Será que percebemos que a pedra foi removida e que a luz da Páscoa entrou na escuridão do túmulo do nosso coração? Para vivenciar o feito da Páscoa, precisamos olhar em outra direção. Enquanto olharmos somente para o túmulo, a solidão e a morte, não perceberemos que algo se transformou profundamente. Se ficarmos presos ao passado, o futuro não poderá se revelar. No momento em que mudarmos a direção do olhar, perceberemos o Ressuscitado vindo ao nosso encontro. Ele nos chama pelo nosso nome mais profundo, assim como chamou Maria no primeiro Domingo de Páscoa. Iremos reconhecê-lo?

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 28 de março

Domingo de Ramos

Referente ao perícope de Mateus 21

A pergunta mais óbvia do Domingo de Ramos é: “Como as mesmas pessoas que gritaram ‘Hosana!’ No domingo podem se virar e gritar ‘Crucifica-o!’ Na sexta-feira santa?” Os aplausos se transformaram em zombarias e a adoração do Rei se transformou em condenação. Como foi possível isso no transcurso de uma semana?

Todos estavam procurando por algo diferente em Jesus, e muitos estavam desapontados com quem ele realmente era. Eles queriam um Jesus milagroso. Eles provavelmente adoraram o fato de ele ensinar parábolas mais fáceis de entender do que o raciocínio obscuro que ouviram dos fariseus. Eles foram atraídos por ele porque ele era um líder vigoroso e dinâmico. Eles gostaram quando ele colocou os fariseus em seus lugares. Mas de todas as qualidades de Jesus que as multidões amavam, a que mais os atraia era o fato de fazer milagres. As multidões se aglomeraram ao redor dele quando o viram curando os coxos, os cegos e os enfermos. E eles clamavam por mais. E eles devem ter ficado especialmente desapontados nas sete ocasiões no Evangelho de Marcos em que Jesus realizou um milagre e depois lhes disse para não contar a ninguém sobre isso. As multidões queriam um Jesus milagroso, mas ele os desapontou. Quem era Jesus para os fariseus? Eles queriam um Jesus ritualístico. Eles pensavam que a questão mais importante da religião devia ser encontrada, não em como criam ou oravam, mas em como se vestiam, se lavavam e comiam. Mas Jesus os desapontou. Quem foi Jesus para os zelotas? Eles queriam um Jesus militar. Os zelotes eram os nacionalistas radicais que estavam prontos para usar a força, até mesmo o terrorismo, para derrubar a mão opressora do governo romano. O verdadeiro significado da Semana Santa, no entanto, o significado de toda a sua vida, morte e ressurreição, é que ele veio e morreu por nós. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Eles não compreendiam o significado da vinda do Cristo e tampouco sua missão, salvar a humanidade do abismo ao qual se dirigia por efeito da queda e do afastamento do Espirito. Agora, dois mil anos depois, o que importa é não só compreender isso, mas sobretudo abrir a alma para recebê-lo e atuar a partir da luz dessa compreensão. Esse é o verdadeiro sentido da festa de ressurreição que se segue apos o seu sacrifício.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 21 de março

Época de Paixão

Referente ao perícope de João 8


Jesus escrevia na terra, enquanto, com insistência, os escribas e fariseus lhe confrontavam com as acusações de adultério cometido por aquela mulher.
O que Ele escrevia?
O texto do Evangelho de João silencia sobre isto.
Podemos imaginar que não se trata de um detalhe sem importância ou de uma atitude de descaso por parte de Jesus em relação aos seus interlocutores. Se Ele quis escrever algo na terra, provavelmente este ato tinha algum significado para Ele.
Mas se alguém escreve na terra, no pó ou na areia, em geral isto é algo efêmero, não pode durar muito…
Neste ponto, podemos começar a nos perguntar, qual teria sido sua intenção ao escrever, e por que escrever na terra?
No final da narrativa ouvimos que Ele não a condena, apenas lhe faz uma advertência:

“… não peques mais!”

Com certeza toda esta situação deve ter ficado profundamente gravada na consciência daquela mulher. Estava na iminência de ser apedrejada e no momento seguinte foi liberada deste castigo, apenas com esta advertência. Tal advertência só faz sentido se o fato que gerou tudo isto não se apagar da sua memória, ou seja, se ficar gravado, registrado na sua consciência. Além disso para não tornar a repetir o mesmo ato, era necessário que algum tipo de mudança e de transformação interna viesse a ocorrer naquela mulher, naquele ser humano, para que, dali para frente, adotasse uma atitude diferente na sua vida.
Cristo parece estar mais preocupado com isto do que com o fato em si e com a necessidade de cumprir a lei.
A lei mosaica era uma lei escrita. No livro do Exodus lemos que Moisés subiu a montanha e retornou com as pedras da lei, onde Deus havia escrito e gravado esta lei.
Isto nos aponta ao aspecto duradouro e imutável que a lei antiga possuía. Até nos dias de hoje, no âmbito jurídico, se fala de “cláusula pétrea” para se referir aqueles artigos da lei que não podem ser mudados: estão como que escritos em pedra.
Os doutores da lei fazem referência a este princípio inflexível, que deve ser cumprido.
Cristo não se contrapõe a isto, mas direciona o foco para a consciência moral de cada um dos ouvintes 

“… quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra”

Suas palavras expressam de certo modo sua atitude: se olhamos apenas para a lei pétrea, nada muda, no final sobrará pedra sobre pedra… mas o ser humano não é um ser pétreo, imutável. O ser humano é feito de outro material.
Retomemos então a imagem da criação: o ser humano foi feito do barro da terra, ou seja, algo mole que se deixa plasmar.
Neste âmbito podemos imaginar que quando Cristo escreve na terra ou no pó exterior o que ele escreveu logo iria desaparecer, mas a sua intenção primeira era “escrever” num lugar mais sutil e ao mesmo tempo mais profundo no ser humano. Ele foi capaz de escrever e de tocar o ser humano em seu interior, em sua consciência moral e a partir daí ajudá-lo a tomar novas decisões na vida. Portanto, sua forma de escrever ganha uma dimensão transformadora.
Cristo nos mostra que é possível “escrever” num lugar onde a memória dos fato pode ficar presente (independente dos registros exteriores) e ao mesmo tempo este lugar possui a força e a dinâmica que podem ajudar o ser humano em seu processo de evolução e transformação.
Eis aqui um magnífico (e difícil) exercício que nos pode motivar a inúmeras reflexões neste período do ano em que celebramos a Paixão.



Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 14 de março

Época de Paixão
Referente ao perícope de João 6
“A alma humana semelha a água
Do céu descende
Ao céu ascende
E renovada, à terra desce
Eternamente!…”
Em Canto dos espíritos sobre as águas de J.W.Goethe

Após a alimentação dos cinco mil, segue-se a imagem dos discípulos em um barco no mar. “Soprava um vento forte e o mar estava revolto”.
Os discípulos avistam Jesus andando por sobre as águas em sua direção. Qual a reação neste momento? Eles ficam com medo.
E o que ouvem? -“Eu Sou. Não temais”. E todo o medo se dissipa.
Qual o elemento onde se dá esse acontecimento? A água. O elemento que melhor expressa as forças vitais e o movimento da alma humana. Após o corpo estar saciado com o bocado de pão e peixe, é chegado o momento onde os discípulos vivenciarão a verdadeira natureza do Cristo Jesus. Sua natureza espiritual. A que atua na esfera sutil das forças vitais e anímicas. A esta visão não estão totalmente preparados, o vento sopra forte e o mar está revolto. O mar está revolto ou as almas assim estão? A visão do Cristo neste elemento traz consigo o desconhecido e o medo se apossa da alma. Porém, quase ao mesmo tempo ouvem o que possibilita à alma encontrar seu “norte”: “Eu Sou”.
A força do EU permeia as almas revoltas que se apascentam, reconhecem a verdadeira natureza do salvador e o acolhem, podendo assim seguir seu caminho evolutivo: “E de imediato o barco chegou junto da margem para a qual se dirigiam”.
É no silêncio da noite quando navegamos pelo mar de estrelas que nossas almas têm oportunidade de vivenciar encontros espirituais. Como nos preparamos para essa jornada? Damos o tempo necessário para nossa alma se apascentar antes da “navegação” noturna, ou adentramos em um mar revolto? Estamos preparados para ouvir e acolher o “Eu Sou” que nos traz o norte de nossa existência e dissipa os medos acumulados ao longo do dia?
Um singelo preparo para os navegantes: a leitura de um belo poema, ou uma oração, ou um bom pensamento e muita gratidão antes da partida. Ao retornarmos na manhã seguinte, provavelmente não nos lembraremos de nossas vivências, mas nem por isso elas deixam de existir. Ter um caderno ao lado da cama e ao abrir os olhos, anotar as primeiras impressões, ou um sentimento ou um sonho, nos auxilia a trazer cada vez mais para a consciência diurna nosso encontro com aquele que nos norteia.
O eterno “Eu Sou”.
Viviane Trunkle

Alocução para a Época da Paixão

Neste domingo entrarmos na Época da Paixão. Sua epístola traz a imagem da separação do ser humano do espírito. Do espírito que nos acorda para nossa meta de vida, para a nossa missão na Terra. Do espírito que alimenta nosso ser verdadeiro, nosso ser espiritual. Essa separação pode ser sentida como uma grande solidão.

Talvez, no ano passado, tenhamos sentido a solidão mais forte do que nunca. Passamos por tempos de grandes desafios, de separações, de dores e de perdas de entes queridos. Seguimos passando por tempos de sofrimentos. Mas começamos também um caminho de aprendizado de como superar as separações físicas, de como lidar com as dores e de como manter uma ligação com as pessoas que adentraram o limiar da morte. Iniciamos um caminho para uma nova união com o mundo invisível.

O Cristo Jesus passou por momentos de solidão, por sofrimentos e pela morte. Ele vivenciou a condição humana de se sentir separado do espírito. O Cristo passou pela morte e abriu um novo caminho de união entre os Céus e a Terra. Ele trouxe um novo impulso para a vida além da morte, para a vida no reino espiritual.

A paixão pode ser uma época de preparação. Uma época na qual abrimos espaço em nosso coração. Nele podemos vivenciar a solidão, a dor e o sofrimento. Eles precisam de tempo e uma atividade interna. Assim podem se transformar. Nas quatro semanas da Época da Paixão podemos desenvolver e fortificar a espera ativa através do trabalho interno: O esperançar. Um esperançar para uma transformação da solidão e dos sofrimentos; um esperançar para uma renovação do impulso do Cristo em nossas vidas e em toda a humanidade. No caminho do esperançar podemos nos preparar para o mistério da Páscoa e a renovação da união entre os Céus e a Terra.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 7 de março

Época da Paixão
Referente ao perícope de Lucas 11, 14-36

“A candeia do corpo é o olho. Sendo, pois, o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso; mas, se for mau, também o teu corpo será tenebroso. Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas. Se, pois, todo o teu corpo é luminoso, não tendo em trevas parte alguma, todo será luminoso, como quando a candeia te ilumina com o seu resplendor.”
Lucas 11, 34-36
Já faz muitos meses que estamos usando máscaras. Isto nos trouxe a experiência de, na rua, nos transportes públicos, nos supermercados, não ver os rostos das pessoas, mas apenas os seus olhos. Perdemos bastante a vivência das fisionomias, mas podemos observar com mais atenção o que vivenciamos quando vemos os olhos de uma pessoa. Vemos as sobrancelhas, as pálpebras, as pestanas, a forma dos olhos, a íris colorida. Mas de tudo aquilo que podemos ver nos olhos, o mais enigmático são as pupilas. Na própria pupila, em si, não vemos nada; ela é um ponto de escuridão. E exatamente neste nada, na escuridão da pupila, é que temos a vivência de encontrar o outro no seu próprio íntimo. Talvez seja esta a dificuldade que temos ao nos olharmos por muito tempo, um na pupila do outro: a intimidade se torna demasiada. E quão diferente pode ser um olhar: carinhoso, compreensivo, com compaixão, amoroso, ou irritado, magoado, mentiroso, irado, ameaçante, amedrontado. Às vezes podemos sentir como, de um olhar, flui luz e calor, às vezes escuridão e frio. A pupila talvez seja o ponto em que podemos estar mais próximos de vivenciar o eu do outro. Para o mundo sensorial a escuridão é um nada. Mas é o ponto onde revelamos se o nosso coração está repleto de luz e calor, ou se estamos correndo o risco de nos preenchermos de escuridão e frio. A luz do mundo entra pelos nossos olhos e nos deixa percebê-la. A luz do nosso coração emana de nossos olhos e determina o modo como olhamos para o mundo e nos permite impregnar o mundo com o calor do nosso amor.
João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 28 de fevereiro

Época de Trindade

Referente ao perícope de Mateus 17, 1-9

De um papel aquarelado podemos fazer uma lanterna. Ao passarmos óleo no papel, ele ficará translúcido. Através do óleo, o papel da lanterna passa por uma metamorfose ficando mais permeável à luz. Colocamos uma vela no interior da lanterna e a luz pode irradiar.
E a nossa luz interna, brilha ou está presa dentro de nós? Certamento nem sempre a deixamos brilhar para o mundo. Muitas vezes não estamos permeáveis à luz. Não deixamos a luz do mundo entrar nem deixamos a nossa luz interna sair.
Como o óleo no papel, a compaixão e o amor podem causar uma metamorfose. Eles podem nos abrir para o outro ser humano e para o mundo. Eles nos fazem permeáveis para a nossa luz interna e para a luz do mundo. Através dessas qualidades o nosso ser eterno pode começar a brilhar e a se manifestar aqui na Terra. A nossa tarefa é trazê-lo cada vez mais para o nosso dia a dia por meio da compaixão e do amor. Pouco a pouco podemos fazê-lo brilhar através de todas as nossas atividades.

Julian Rögge