Reflexão para o dia de Reis, 6 de janeiro

Em muitos presépios, os reis só aparecem a partir do dia 1º de janeiro. Eles se põem a caminho na busca da sagrada criança. Um sinal nas estrelas, uma constelação especial anunciou uma nova era na Terra para toda a humanidade. Uma nova força cósmico- divina se manifestou na Terra vinda das alturas, anunciada por acontecimentos cósmicos: um nascimento virginal, divino.
As luzes do Natal nos trazem à consciência que a alma humana está intimamente ligada a esse acontecimento cósmico e terreno.
O que queriam os magos do Oriente quando na manjedoura ofertaram as dádivas da sabedoria divina no ouro, da virtude no incenso e da imortalidade na mirra? Ao fazê-lo testemunharam concretamente que haviam entendido a mensagem das estrelas: as forças que anteriormente fluíam do Cosmos para a Terra não mais poderiam ser percebidas e acolhidas simplesmente olhando para o Cosmos, para as constelações das estrelas. Mostraram que no futuro seria necessário que cada ser humano comece agora a olhar sobretudo para o que está a acontecer no desenvolvimento histórico, social e moral da humanidade, na própria Terra.
Através do Cristianismo, os segredos do mundo e da história mundial se tornaram qualitativamente relacionados com curso do ano cristão, com as festas cristãs, sobretudo com o Natal e a Páscoa. O que, na virada dos tempos, aconteceu através do nascimento virginal à luz do Natal e se desenvolveu em 33 anos até a Páscoa, agora moldará a história da humanidade no futuro.
A antroposofia, a ciência espiritual nos incentiva a olhar os acontecimentos nos ciclos de 33 anos passados para compreender a atualidade. No futuro, a história poderia vir a ser compreendida analisando os acontecimentos passados nos ciclos de 33 anos. Isso também significa que o Cristo atua, acompanhando a humanidade nos impulsos espirituais que são iniciados na Terra. Por outro lado, pode-se também dizer que, se por indiferença, ignorância ou comodidade o ser humano não assume sua responsabilidade diante dos acontecimentos, ou até mesmo se deixa levar por interesses puramente terrenos e destrutivos, então também poderá esperar as graves consequências de sua atuação em 33 anos.
Nestes tempos desafiantes, cada um é chamado a gerar novos impulsos sob a luz do Natal e a desenvolver uma nova compreensão do que realmente está a acontecer no plano social e moral. Aquilo que for gerado por uma consciência espiritual sob a luz do Natal poderá celebrar a sua Páscoa em 33 anos. Assim, Jesus Cristo caminhará com a humanidade na direção da sua meta espiritual até o final do desenvolvimento da Terra.
A história se tornará cada vez mais o curso do caminho de desenvolvimento do ser humano para, com Cristo, se tornar um Espírito entre Espíritos.

(Ideias relacionadas com a palestra de Rudolf Steiner: Et incarnatus est… Os ciclos dos acontecimentos históricos, do dia 23/12/1917, na Basiléia.)

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 29 de dezembro

Referente à perícope do Evangelho de João 1, 1-18

Cada palavra
tem três capas.
Três capas envolvem
as palavras.

A primeira é azul
Ela envolve a palavra
num calmo tom anil,
quiçá também um pouco frio.
Essa capa nos ajuda
a compreender,
na mente,
a palavra
para que,
com o distanciamento necessário,
possamos refletir com calma
sobre o seu significado.
Isso é o que a capa azul faz com a palavra

Logo abaixo dessa,
a palavra tem uma segunda capa
Ela está tingida de vermelho ardente.
Quando conseguimos nos aprofundar
até seu calor flamejante,
então encontramos
as emoções,
os sentimentos,
que a palavra
também alberga em si.

Cada palavra humana
pronunciada,
não se dirige apenas à razão,
mas quer falar
também à alma.

A palavra com sua capa azul
fala bem para a cabeça.
A palavra envolta em sua capa vermelha
sussurra diretamente ao coração.

Mas há ainda uma terceira capa.
Ela se encontra posta bem justa à palavra.
Nem sempre é possível vislumbrá-la,
pois essa capa mais interior,
frequentemente
permanece oculta pelas duas outras.

Se tivermos sorte,
num piscar de olhos,
num instante fugaz
ela surge
brilhando,
dourada-reluzente,
através das fendas
entreabertas
das outras duas.

Três capas possui a palavra:
para a razão, a azul;
para o coração, a vermelha
e a outra,
a amarelo-ouro,
é a que se revela,
apenas ocasionalmente,
para o espírito livre.

Se faltar à palavra
uma destas capas,
então a palavra
não durará muito.
Mais cedo ou mais tarde
passará.

Mas se a palavra,
O Logos-Palavra,
Ele mesmo,
se manifestar
– tríplice –
em azul, vermelho e amarelo,
então pode o mundo
vir a passar;
mas a Sua Palavra,
que fala à mente,
ao coração
e ao espírito,
esta palavra
se preservará.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 22 de dezembro

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 1, 39-56.

A história de Maria revela um potencial oculto que irrompe no mundo. Seu “Magnificat”, uma canção de louvor, proclama a grande transformação. Começa com Maria visitando Isabel, onde ambas as mulheres carregam gestações milagrosas, sinais do poder transformador de Deus. Quando Maria cumprimenta Isabel, seu filho salta de alegria, e os propósitos do céu são revelados: o passado profético encontra o futuro divino, e a bênção de Isabel reverbera na canção de Maria. O “Magnificat” é uma declaração revolucionária de um mundo transformado pela graça de Deus. Maria se alegra na misericórdia de Deus, reconhecendo sua humildade como condição para a ação divina. Suas palavras revelam um Deus que eleva os humildes, satisfaz os famintos e transforma o mundo por meio do amor e da misericórdia. Como uma semente que brota, o reino de Deus começa no pequeno e oculto, mas cresce para renovar todas as coisas. A canção de Maria proclama a fidelidade de Deus e nos chama a confiar e agir. À medida que Deus eleva os humildes e sacia os famintos, somos chamados a magnificá-Lo não apenas em louvor, mas por meio de vidas de misericórdia e justiça, o que só se tornou possível com a vinda do filho que estava em seu ventre. Neste Natal, que a canção de Maria nos inspire a ser instrumentos do amor de Deus, trazendo vida e paz a um mundo em convulsão para transformá-lo.


Carlos Maranhão

Reflexão para domingo, 15 de dezembro de 2024

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 1, 26-38

Para que algo novo possa nascer na Terra, precisamos de pelo menos duas qualidades. Nós as encontramos nas duas anunciações que ouvimos na Época de Advento.

Após receber a anunciação do nascimento de João Batista, Zacarias fica em silêncio até o menino nascer. No nosso dia a dia, observamos as várias camadas do silêncio. A ausência dos ruídos da civilização nos permite ouvir os sons da natureza. Quando a natureza também silencia, ouvimos o barulho dentro de nossa alma. No momento em que conseguimos silenciar o nosso interior, podemos ouvir o que quer se anunciar em nós.

Maria nos revela a outra qualidade. Ela se entrega totalmente à vontade divina anunciada pelo anjo. Com profunda devoção, ela se abre à grande tarefa que lhe é confiada, colocando sua própria vontade a serviço da vontade divina.

O silêncio interior e a entrega à vontade divina são duas qualidades que precisamos desenvolver ativamente. É um caminho longo. A cada ano, na Época do Advento, recebemos novamente essa tarefa. Através dela, preparamo-nos para o novo que quer nascer.

Julian Rögge

Reflexão para domingo, 8 de dezembro de 2024

William Blake- 1799/1800
William Blake – 1799/1800


Referente à perícope do Evangelho de Lucas 1, 5-25
A anunciação do anjo Gabriel a Zacarias


No começo do seu Evangelho, Lucas se dirige a Teófilo, ou seja, ao “amigo de Deus“. Certamente, nenhuma pessoa concreta, mas todo aquele que consegue ouvir e acolher em seu coração a palavra de Deus. Então, a mensagem do Evangelho começa com dois episódios prometedores: as anunciações do anjo Gabriel a Zacarias e depois a Maria. Os nascimentos dessas duas crianças anunciadas e já nomeadas por Gabriel: João, mais tarde o Batista, e Jesus, mais tarde o Cristo – que terão um significado para toda a humanidade. “Muitos se regozijarão pelo seu nascimento“ (João) e “seu reino não terá fim“(Jesus).

Essas duas crianças se encontrarão no seu caminho da vida e atuarão de tal modo que a graça divina poderá se derramar sobre toda a humanidade, para sempre.

Isso aconteceu na época em que Herodes era rei de Israel, época de muitas provas, pois Herodes não era um rei legítimo, não era fiel ao Deus Javé e estava comprometido com as autoridades romanas, constante ameaça para o povo judeu.

Mas a fidelidade sacerdotal de Zacarias, a pureza de alma de Maria, permitiram que a mensagem do anjo Gabriel lhes fosse revelada e eles se tornassem instrumento da vontade divina. A vontade divina era que o reino de Deus viesse para a Terra. Nós também vivemos em tempos bem críticos. As ameaças à humanidade na nossa civilização materialista, dominada pela técnica, ganham dimensões cada vez mais inéditas e poderosas. Mas o Redentor vive entre nós, conosco até o final dos tempos. O Reino de Deus veio para o interior da alma humana. A fidelidade à obra de amor do Cristo, a pureza de nossos corações poderão abrir os nossos olhos e ouvidos para perceber a revelação da vontade divina. As dúvidas se apagarão e poderemos nos tornar instrumentos da vontade divina, agirmos em conjunto, em comunidade, para o bem, para a luz e vida eterna

Helena Otterspeer

Reflexão para domingo, 1º de dezembro de 2024

Na época de Advento
ouvimos:
Crepúsculo reina ao redor…
Mas é quase verão.
O sol brilha intenso.
As cores resplandecem.
A luz inunda a Natureza.
Entretanto, no mundo dos seres humanos,
em muitos lugares, tudo se torna cinzento,
cinéreo,
pela poeira das bombas,
pelo peso dos escombros.
É quase verão,
mas entre os filhos dos homens
o frio e a escuridão se alastram.
Toda guerra é cinzenta,
Toda injustiça também…
O desprezo pela vida é mais cinzento ainda.
Crueldade cinérea, brutal,
que acinzenta a alma…
Sobrevém o crepúsculo da dignidade humana,
dentro da alma.
E logo deverá ficar bem escuro!
Lá fora o verão colorido, luminoso!
Cá dentro o frio cinzento, insensível.
Não é apenas um crepúsculo da alma.
A razão e a fraternidade também anoitecem,
perdem-se na escuridão.
No escuro
as mentiras e
as verdades fraturadas
se sentem melhor.
Almas cinzentas,
cobertas de sombras,
escondem melhor
sua real intenção.
Sim,
o crepúsculo reina ao nosso redor.
A luz é encoberta.
O bem é soterrado.
–   –   –   –   –

Mas já é Advento.
Advento é novo começo.
Advento abre caminhos.
Caminhos novos, ainda não trilhados.
Mas esses caminhos conduzem,
no início,
inevitavelmente,
através de sendeiros cinzentos,
cobertos de cinzas.
É triste, mas é assim que tem que ser…
No Advento, entretanto,
se anuncia
nova aurora.
A luz retornará.
Retornarão também as cores.
Neste novo começo
tudo ainda é muito suave,
delicado,
quase imperceptível.
Pois
ainda não nasceu.
A aurora
está grávida e
carrega dentro de si
luz brilhante,
cores resplandecentes,
que que se anunciam
e que querem nascer.
Hoje podemos
apenas pressentir.
Nós podemos
apenas esperançar.
Esperança e pressentimento,
contudo,
nos dão força,
nos dão coragem,
nos incentivam
a seguir caminhando.
O caminho do Advento
é longo.
Apenas começamos
a trilhá-lo.
Mas este caminho é diferente;

é criado
somente quando se caminha.
É o passo
que faz o caminho.
A cada passo
o caminho se torna reconhecível.
O caminho se torna reluzente.
As cores resplandecentes,
a luz brilhante
geram-se de novo.
Elas se geram,
quando aprendemos
a desviar-nos
dos caminhos cinzentos.
Quando decidimos
deixar para trás a escuridão.
Então,
a nova aurora no céu,
o novo amanhecer
anuncia
o que se gera
dentro da alma humana:
O nascimento
da luz na consciência,
das cores na convivência fraterna.
Isto é Advento.

Renato Gomes, Berlim

Reflexão para o domingo, 24 de novembro de 2024

Referente à perícope do Apocalipse de João 22, 12-21

Eva e Adão saíram do Paraíso depois de terem comido da árvore do conhecimento do bem e do mal. Da árvore da vida, que também estava no Jardim do Éden, eles não comeram. Desde então, precisamos sempre escolher entre o bem e o mal. Isso nos dá a possibilidade de desenvolver a liberdade.
Nos últimos capítulos do Apocalipse, João nos mostra grandes imagens do futuro da humanidade. Na nova Jerusalém, Deus e o Cordeiro viverão entre os seres humanos. Nela também haverá, como no Paraíso, a árvore da vida. Dela jorrará a água da vida eterna.
Depois que desenvolvemos a liberdade através da escolha entre o bem e o mal, receberemos na nova Jerusalém a água da vida eterna. Através dela encontraremos a vida além da morte, nos tornaremos a décima hierarquia e trabalharemos em harmonia com as hierarquias celestiais.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 17 de novembro de 2024

Referente à perícope do Apocalipse de João 21

Imagine uma semente descansando sob o solo. Na escuridão silenciosa, ela espera, escondida da vista,
suportando a pressão da terra fria sobre ela. No entanto, mesmo nessa quietude silenciosa, ela contém um poder oculto, uma promessa de uma nova vida. Com o tempo, a luz do sol e a chuva, ela romperá a
superfície, crescendo em direção à luz, transformando-se em algo além do que já foi, além até mesmo do
que poderia ter imaginado se pudesse sonhar.
Essa poderia ser uma metáfora para a imagem que João nos apresenta no Apocalipse da Nova Jerusalém. O que essa visão significa para nós hoje? Às vezes, nas lutas de nossas vidas, parece que somos como aquela semente, enterrada no escuro. Encontramos provações, contratempos, dor e perda. O peso do mundo pode nos pressionar fortemente. No entanto, o Apocalipse 21 nos lembra que nós também estamos em um processo de transformação. Esta visão não é apenas uma promessa distante; é um convite para viver com esperança e determinação agora. Ao nos apegarmos a esta visão, encontramos a força para continuar avançando.
As promessas de Deus são certas, e seu propósito para a humanidade é nos levar a um lugar de união com Ele, onde estaremos totalmente vivos, totalmente renovados e totalmente em paz. Não se trata de uma novidade passiva, mas ativa, uma novidade da qual somos chamados a participar. Comecemos lembrando, todos os dias, que a presença de Deus já está conosco. A Nova Jerusalém simboliza não apenas uma realidade futura, mas também uma presente, a verdade espiritual de que o Espírito de Deus está vivo e ativo em nossos corações agora mesmo. Ele caminha conosco em nossas lutas e nos chama para nos elevarmos acima delas, para avançar em direção à luz, assim como a semente cresce em direção ao sol. 

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 10 de novembro de 2024

Figura: Miniatura do manuscrito Magius do monge Beatus – Século X

Referente à perícope do Apocalipse de João 7, 9-17

Não é notável o que João presenciou no reino divino: a congregação de vários seres divinos e almas humanas, as de falecidos, para juntos celebrarem o culto? Sim, João Evangelista vivenciava um culto divino em que o centro – o ‘altar’ com o trono e o Cordeiro – estava resguardado em um espaço de calma e silêncio, guardado pelos quatro anjos (como descrito no início do capítulo).

Bem próximo ao trono e ao Cordeiro, estavam os quatro seres viventes, os anciãos e então a multidão incontável de todas as raças, nações e povos vestidos de branco, com folhas de palmeira nas mãos.

As vestes brancas das almas humanas, lavadas no sangue do Cordeiro, representam sua natureza espiritual compartilhada com a do Cordeiro e alcançada pela superação das provas do destino. Essas vestes representam a parte da natureza do Cristo que conseguimos vestir e nos apropriar na vida terrena. É a veste que nos foi preparada por Cristo para formar o nosso corpo da ressurreição.

A multidão cantava com os anjos um hino de louvor, reconhecendo o princípio de vida e de transformação que irradiava do altar para sempre, em todos os ciclos dos tempos. Que consolo para João, que vivia no exílio perseguido em tempos conturbados, poder vivenciar no dia do Senhor, no domingo – quando semana após semana ele havia celebrado a eucaristia como sacerdote em Éfeso com sua comunidade – que no mundo divino também se celebrava o mistério da morte e ressurreição para a salvação da Terra e da humanidade.

Certamente, esse culto celeste ressoava com todos os cultos celebrados aos domingos nas comunidades cristãs de diversas regiões. Nenhum regime político, ameaça de prisão ou condenação, nenhum ataque de forças adversas poderia diminuir a enorme fonte de luz e vida que dali irradiava.

Todos os seres envolvidos estavam intrinsecamente ligados ao projeto da humanidade desde os seus primórdios, com a promessa de um futuro grandioso, no qual as almas humanas poderão entoar um cântico novo junto aos seres divinos, e serão acolhidas para sempre na comunidade dos seres divinos.

Os quatro seres viventes são querubins que, a partir do âmbito do zodíaco, prepararam a humanidade e a alma humana individual, desde tempos remotos, para que um dia possam receber o espírito em si. São seres que inspiraram os quatro evangelistas para a divulgação da palavra viva do Evangelho. Os anciãos são os guardiões dos frutos da evolução humana e aqueles que promovem seu futuro.

Nunca deixemos de elevar nossos olhos para esse âmbito onde o Cordeiro e aquele que está sentado no trono reúnem todos os seres e potências espirituais para o milagre da transformação e superação das forças da morte e do mal. Isso acontece quando nos reunimos em torno do altar. Esse é também o âmbito em que o nosso próprio eu desperta e começa a viver em comunhão com todos os seres vivos.

                               Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 3 de novembro de 2024

Sardes

Recorda!
Já faz muito tempo…
Recorda o que vem antes do teu próprio tempo!
Antes do que me lembro? Não consigo.
Se dizes que não consegues, é porque já estás morto para recordar…
Mas vivo, caminho, faço coisas úteis!
Nada tem utilidade, se não podes recordar. A que vieste?
A que vim? Já não lembro…
Olha minha mão. O que vês?
Marcas, calos do tempo…
Nada mais além disso?
Se fecho um pouco as pálpebras, parece que há um brilho…
Brilho de estrela
Minha estrela?
Pode ser. Depende de ti recordá-la
De repente me sinto pequeno, insignificante, nu…
Toda vida começa nua
E tudo o que fiz, não teve sentido?
Talvez para outros, não para ti.
Então de fato morri?
Não, apenas regressaste de novo ao tempo de nascer,
despido do acessório, focado no miolo.
Me envergonho, pois agora me vejo nu.
Vergonha é esconder algo. Assim mostras o que es.
E o que vês?
Vejo agora o que antes não recordavas,
tua nudez deixa tuas lembranças brilharem.
E agora?
Vem, caminha comigo!
E aonde vamos?
Escrever teu nome no Livro da Vida.

Renato Gomes