Na época de Advento
ouvimos:
Crepúsculo reina ao redor…
Mas é quase verão.
O sol brilha intenso.
As cores resplandecem.
A luz inunda a Natureza.
Entretanto, no mundo dos seres humanos,
em muitos lugares, tudo se torna cinzento,
cinéreo,
pela poeira das bombas,
pelo peso dos escombros.
É quase verão,
mas entre os filhos dos homens
o frio e a escuridão se alastram.
Toda guerra é cinzenta,
Toda injustiça também…
O desprezo pela vida é mais cinzento ainda.
Crueldade cinérea, brutal,
que acinzenta a alma…
Sobrevém o crepúsculo da dignidade humana,
dentro da alma.
E logo deverá ficar bem escuro!
Lá fora o verão colorido, luminoso!
Cá dentro o frio cinzento, insensível.
Não é apenas um crepúsculo da alma.
A razão e a fraternidade também anoitecem,
perdem-se na escuridão.
No escuro
as mentiras e
as verdades fraturadas
se sentem melhor.
Almas cinzentas,
cobertas de sombras,
escondem melhor
sua real intenção.
Sim,
o crepúsculo reina ao nosso redor.
A luz é encoberta.
O bem é soterrado.
– – – – –
Mas já é Advento.
Advento é novo começo.
Advento abre caminhos.
Caminhos novos, ainda não trilhados.
Mas esses caminhos conduzem,
no início,
inevitavelmente,
através de sendeiros cinzentos,
cobertos de cinzas.
É triste, mas é assim que tem que ser…
No Advento, entretanto,
se anuncia
nova aurora.
A luz retornará.
Retornarão também as cores.
Neste novo começo
tudo ainda é muito suave,
delicado,
quase imperceptível.
Pois
ainda não nasceu.
A aurora
está grávida e
carrega dentro de si
luz brilhante,
cores resplandecentes,
que que se anunciam
e que querem nascer.
Hoje podemos
apenas pressentir.
Nós podemos
apenas esperançar.
Esperança e pressentimento,
contudo,
nos dão força,
nos dão coragem,
nos incentivam
a seguir caminhando.
O caminho do Advento
é longo.
Apenas começamos
a trilhá-lo.
Mas este caminho é diferente;
é criado
somente quando se caminha.
É o passo
que faz o caminho.
A cada passo
o caminho se torna reconhecível.
O caminho se torna reluzente.
As cores resplandecentes,
a luz brilhante
geram-se de novo.
Elas se geram,
quando aprendemos
a desviar-nos
dos caminhos cinzentos.
Quando decidimos
deixar para trás a escuridão.
Então,
a nova aurora no céu,
o novo amanhecer
anuncia
o que se gera
dentro da alma humana:
O nascimento
da luz na consciência,
das cores na convivência fraterna.
Isto é Advento.
Renato Gomes, Berlim