Reflexão para o domingo, 9 de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 20, 1-16 

 No desenvolvimento embrionário humano, o coração é praticamente o primeiro órgão que começa a funcionar, logo que se forma. As células do músculo cardíaco (o chamado miocárdio), já no 21º dia após a fecundação, começam a se contrair ininterruptamente – na conhecida alternância entre sístole e diástole – e prosseguem, sem pausa, até o último dia de nossas vidas!
Nosso sistema nervoso se forma também relativamente cedo. Contudo suas funções vão amadurecendo bem gradativamente, mesmo após o nascimento, necessitando tempo para chegar ao total desenvolvimento. Sabemos que a capacidade cognitiva mais elevada só se alcança no final da infância e início da vida adulta.
Sabemos também que com o passar dos anos, o sistema nervoso envelhece gradativamente e, em muitos casos, aparecem nítidos sinais de declínio intelectual, esquecimentos e redução da capacidades para aprender coisas novas.
Algo similar ocorre também com o sistema reprodutor. Nascemos com órgãos e glândulas formados, mas não estão maduros para sua função. Eles só desabrocharão na puberdade e permanecerão ativos apenas por um período limitado da vida, pois é natural que o ser humano perca suas capacidades reprodutivas nas fases mais avançadas da vida.
Tanto o sistema nervoso, quanto o reprodutor encontram-se nas extremidades: no polo consciente da cabeça, que coroa a coluna vertebral de um lado, e no polo metabólico do outro, na parte mais inferior deste mesmo eixo de sustentação do organismo.
Temos aqui dois sistemas orgânicos que estão nos pontos extremos, na “periferia” do corpo.
O coração, ao contrário, é um órgão central, encontra-se no “meio” de nosso organismo.
Talvez pudéssemos dizer que quanto mais próximo ao “meio” um sistema ou órgão se encontre, tanto mais sua função, seu trabalho, se inicia precocemente e se estende por mais tempo durante a vida (pulmões, rins, fígado etc.).
Ao contrário, órgãos que estão mais “periféricos” começam a desempenhar sua função, seu trabalho, mais tarde e tendem a encerrá-lo mais cedo.
Órgãos do “meio” trabalham por toda a jornada da vida. Órgãos da “periferia” são convocados para trabalhar somente mais tarde e para uma jornada mais curta.
Mas todos servem a um único organismo. Não há como valorizar mais uma função do que outra. Para a unidade do organismo o que importa é o trabalho conjunto, que promove a saúde.
Aqui vale: os que começam a “trabalhar” por último, serão os primeiros a encerrar sua atividade; os que iniciaram seu “trabalho” primeiro, serão os últimos a cessar!
Mas o foco é o organismo como um todo.
Também nesta parábola do Evangelho de Mateus, Cristo nos aponta esta unidade, através da imagem do denário, que correspondia à medida para uma jornada diária de trabalho na vinha, que aqui se torna imagem para a vida.
Nossa vida nos é dada como a oportunidade para trabalhar em nossa vinha (nossa biografia). Haverá situações em que temos que nos esforçar diariamente, o tempo todo, sem interrupção, pois delas depende nossa própria existência.
Haverá outras, entretanto, que realizaremos por um período menor ou até mesmo por um breve lapso de tempo.
Tudo isto, contudo, contribui para nossa vida, para a unidade de nosso ser: um denário!
A questão que se apresenta, portanto, é: como aprendemos a discernir (e também a escolher) o que pertence mais ao “meio”, que carrega nossa existência do início ao fim, e o que pode ser deslocado para a “periferia”. O que não significa que tais coisas não seja importantes, mas que tem um tempo limitado em nossa biografia.
Do ponto de vista orgânico não é difícil fazer este discernimento: precisamos comer, dormir, realizar atividades com nosso corpo e outras coisas mais. Por outro lado, podemos escolher se neste ou naquele momento queremos nos dedicar a uma vivência artística ou de lazer, ou se intensificamos nosso esforço por um tempo para aprender alguma nova habilidade.
Como é então com o cultivo da vida interior? Pertence ao âmbito do “meio” ou à “periferia”?
Orar, meditar, refletir são atividades que pertencem a um breve período da vida ou podem ser, cada vez mais, deslocadas para o “meio”, para o que é essencial e duradouro em nossa existência?
Talvez pudéssemos tomar esta parábola como ajuda para refletir neste ponto!

Renato Gomes