Ao acompanharmos os acontecimentos da Semana Santa, pudemos torná-la viva em nosso interior. Da entrada do Cristo em Jerusalém com todo júbilo e brilho, via purificação do templo e confronto com as autoridades judaicas, até a unção do Cristo e a Santa Ceia. Pudemos perceber como os acontecimentos se intensificaram e como a atmosfera ficou cada vez mais densa. O júbilo e o êxtase se transformaram no curso da semana em uma luta interior. Tudo estava direcionado para os acontecimentos mais importantes no desenvolvimento da humanidade. Na noite da Quinta-feira Santa começou a luta do Cristo com a morte.
“E ele afastou-se deles, à distância do arremesso de uma pedra. Pondo-se de joelhos, começou a orar, dizendo: ‘Pai, se quiseres, afasta este cálice de mim; porém não a minha, mas a tua vontade se faça.’ Apareceu-lhe um anjo do céu que o confortava. Em estado de angústia, ficou a orar com mais afinco e o suor tornou-se em coágulos de sangue, que caíam na terra. Levantou-se depois da oração (…).” Lucas 22, 41-45
Esse trecho mostra o combate do Cristo com a morte que prematuramente queria se apossar dele, antes do comprimento de sua missão na Terra.
Depois disso, o Cristo Jesus por vontade própria, colocou-se nas mãos dos adversários e seguiu para o julgamento até a morte na cruz. O Ser Divino, o Cristo, tornou-se inteiramente humano, até poder morrer na cruz. Ele foi baixado ao túmulo da Terra e vinculou-se totalmente a ela. Um grande silêncio se espalhou. O desenvolvimento do cosmos chegou a um momento decisivo e parou por um átimo. O mundo prendeu a respiração. “O que acontecerá?”
Há muito tempo não vivenciamos essa atmosfera da Paixão tão forte como nas últimas semanas. O medo, a dor e o sentimento de desamparo perante a morte invisivelmente ameaçadora. Medo de chegar no ponto final da vida. Dor em ver pessoas queridas lutando com a morte. Sentimento de desamparo por não poder acompanhá-los nesse caminho, por perdê-los. A morte parece, facilmente, o ponto final do desenvolvimento da vida humana. Nas semanas passados pudemos sentir como o mundo prendeu por um instante a respiração. Percebemos um grande silêncio se espalhando pela Terra. O que acontecerá?
“Maria Madalena tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo. Ela enxergou dois anjos sentados, vestidos de branco, um na cabeça, outro aos pés, no lugar onde tinha sido posto o corpo de Jesus. E eles perguntaram: ‘Mulher, por que choras?’. Ela respondeu: ‘Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram.’ Dizendo isto, Maria virou-se para trás e vê Jesus de pé e não sabia que era Jesus. Jesus perguntou-lhe: ‘Mulher, por que choras? Quem procuras?’. Ela, pensando que ele fosse o jardineiro, disse: ‘Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo’. Então, Jesus falou: ‘Maria!’. Ela, voltou-se e exclamou em hebraico ‘Rabuni!’ (o que quer dizer Mestre). Jesus disse: ‘Não me toques. Ainda não ascendi para o Pai.’” João 20, 11-17
Em profundo luto, Maria Madalena fica em frente ao túmulo. O luto lhe oculta o acontecimento que mudou o mundo. Somente após ser chamada pelo nome (ser tocada em seu eu superior), ela desperta e reconhece o Ressuscitado à sua frente. Alguns discípulos também tem dificuldade em reconhecer o feito do Cristo. Eles tem dúvidas, isso se mostra claramente na passagem onde Tomé, para crer no ressurrecto, precisa tocar as feridas do Cristo. Pouco a pouco os discípulos perceberam as mudanças que se operaram no mundo.
A morte, não é mais o ponto final da vida. Ela se tornou, como o nascimento, a transição entre dois mundos. O desenvolvimento da humanidade tomou para sempre um novo caminho. O feito do Cristo na Páscoa, a vitória sobre a morte, é para todos e a qualquer momento factível.
Esse fato pode mudar nossa vida profundamente, ao nos tirar o medo da morte. Podemos vivenciar isso a cada dia: ao adormecer e ao acordar. Nessas situações transitamos entre o mundo terrestre e o mundo espiritual. Normalmente não temos medo de adormecer, de ir para o mundo espiritual. No dia seguinte podemos acordar com novas ideias e novos impulsos para a vida aqui na Terra. A morte não é muito diferente do sono. Nela também transitamos de um mundo para o outro. Nela também continuamos nosso caminho no mundo espiritual até um dia voltarmos com novos impulsos para a vida na Terra. Nela ficamos ligados com os nossos entes queridos. O nosso medo da morte, as nossas preocupações e o nosso luto, facilmente ocultam esse fato. Nós nos sentimos à mercê da morte. Em nosso desamparo não percebemos que o Cristo caminha à nossa frente. Ele faz esse caminho, esse sacrifico pelo amor aos seres humanos. Ele nos deu a possibilidade de segui-lo e nos prometeu:
“E eis que eu estou convosco, todos os dias, até o fim dos tempos.” Mateus 28, 20
Somos chamados a sucedê-lo a vencer a morte. Ele estará conosco!
Julian Rögge