Reflexão sobre o Evangelho de João, 13 de abril

“E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia; e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas. E, faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Não tem vinho.’ Disse-lhe Jesus: ‘Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. ‘ Sua mãe disse aos serventes: ‘Fazei tudo quanto ele vos disser.’
E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes. Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. E disse-lhes: ‘Tirai agora, e levai ao mestre-sala.’ E levaram.
E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo, e disse-lhe: ‘Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.’
Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele.”
João 2, 1-11

É possível transformar água em vinho?
Obviamente, a natureza faz isso todo ano. Das profundezas da terra a videira eleva a água que está em um nível mineral e a coloca em um processo vital, preenchendo as uvas com ela. A videira assimila a força do sol e transforma a água em suco de uva, incrementando o açúcar. Em um segundo processo o suco de uva pode fermentar e se transformar em vinho. Transformar água em vinho não é algo excepcional, ainda que na natureza seja um milagre.
O excepcional é que na narração das bodas de Caná isto acontece pela atuação do Jesus Cristo. Podemos olhar isto como milagre, no sentido de algo mágico, que exige a nossa crença. Mas também podemos olhar isso como um acontecimento que, como imagem, descreve algo que tem a ver conosco, com um caminho espiritual que queremos seguir para nos unirmos com o Jesus Cristo.
A transformação da água em vinho é o primeiro passo de um processo que se completará na transformação do vinho em sangue na Santa Ceia. A transformação da água em vinho é um processo natural que acontece no reino vegetal. A transformação do vinho em sangue também é um processo que acontece continuamente, mas não na natureza, no mundo vegetal fora de nós, mas na natureza dentro de nós, no nosso próprio corpo. Continuamente nós estamos a partir da alimentação transformando aquilo que recebemos do reino vegetal em nosso corpo, em nosso sangue. Esses processos são naturais, tanto fora do nosso corpo, quanto dentro do nosso corpo. Fora do nosso corpo acontecem pela força do Sol, dentro do nosso corpo pela força do nosso próprio Eu.
Em nosso caminho espiritual temos a tarefa de, pela nossa consciência, elevar aquilo que é ‘natural’ para uma esfera na qual pode se unir com o Cristo.
Normalmente cultivamos a natureza e pensamos que, obviamente, as plantas crescem, frutificam e amadurecem. Comemos o que a natureza nos oferece e pensamos que, obviamente, somos nutridos. Transformamos o alimento em nosso corpo e em nosso sangue e pensamos que isso, obviamente, acontece. Não é óbvio: é um milagre. Acontece fora de nós pela força do Sol, acontece dentro de nós pela força do nosso próprio Eu.
E qual é essa força de transformação que o Sol tem, que o nosso Eu tem?
Não é necessário acreditar no milagre que parece ter acontecido nas Bodas de Caná. O que precisamos é prestar atenção para essa força de transformação que atua na natureza fora de nós, que atua em nosso corpo dentro de nós, e que atua também em nossa alma. Então iremos, com certeza, vivenciar milagres de transformações que continuamente acontecem em nosso dia a dia, na natureza e em nossa alma, e poderemos, talvez, sentir nesses processos a presença do Cristo.

João Torunsky