História de Micael

Nas alturas do céu, no coração do mundo, existe um trono, majestoso e precioso. Neste trono repousa Deus e de lá ele pode ver tudo. Bem perto do trono ficam de pé os quatro anjos de Deus. E, para que todos saibam que estes são os anjos mais próximos de Deus, eles trazem em seus nomes as letras sagradas E-L. Há muito tempo atrás estavam ali Gabriel, Rafael, Uriel e Satanael.
Do trono de Deus começa uma escada que, em nove degraus, desce até a Terra. E os anjos descem e sobem por essa escada levando aos homens a graça de Deus, e levando a Deus as orações dos homens.
Um dia Satanael se afastou de Deus, pois ele queria ver se existia algo mais distante, algo distante de Deus. Ele foi se afastando sempre mais e, quando já estava bem longe de Deus, começou a pensar e sentir algo que ele nunca tinha pensado e sentido antes. Satanael pensou: “Porque só Deus tem um trono e porque nós temos que servir a ele dia e noite? isto não é justo!” Ele começou a sentir inveja e a se sentir sozinho. E ele pensou: “Eu também quero ter um trono e quero ter o meu reino e quero ser independente de Deus.” Quando Satanael voltou,  começou a procurar outros anjos e procurou convencê-los de que seria melhor ajudá-lo a fazer um trono e servir a ele, e não mais a Deus. A maioria dos Anjos não seguiu Satanael, mas alguns sim. E assim Satanael se afastou de Deus, construiu o seu próprio trono e tinha um exército de anjos que o serviam. Mas ele ainda não estava satisfeito. Ele queria que também os homens o servissem e não mais fizessem orações para Deus, mas começassem a adorá-lo.
Quando Deus percebeu o que Satanael estava fazendo, decidiu que Satanael tinha que ser derrubado do seu trono. Ele chamou todos os anjos do céu e perguntou quem estava disposto a lutar contra Satanael. Ninguém se dispôs, pois todos sabiam que Satanael era muito poderoso. Mas, depois de algum tempo de silêncio, se escutou a voz firme de um anjo: “Eu estou disposto a fazer o melhor que eu posso!” Todos olharam para trás e viram Mica, assim era o seu nome. Deus olhou para Mica e disse: “Então vai e tenta a tua sorte.” Mica vestiu a sua armadura, empunhou sua espada e foi para perto do trono de Satanael. Ele mal tinha chegado perto quando Satanael se levantou do trono, empunhou sua espada de fogo e com um golpe atirou Mica para bem longe e, rindo dele, se sentou de novo. Mica ficou estendido no chão todo queimado do golpe da espada de fogo. Mas ele não perdeu a coragem; foi até o trono de Deus e disse: “Senhor, com a minha espada eu não consigo vencer Satanael. Eu preciso de uma espada de fogo.” Deus olhou para ele e perguntou: “Você ainda tem a coragem de tentar mais uma vez?”  “Sim” disse Mica “e mais dez se for necessário”. Deus se alegrou da coragem de Mica e deu a ele a sua própria espada de fogo. Mica empunhou a espada e foi para perto do trono de Satanael. Quando Mica estava chegando, Satanael se levantou, empunhou sua espada de fogo e, com um golpe, queria agora acabar com este anjo incômodo de uma vez para sempre. Mas com a sua espada de fogo, Mica se protegeu do golpe. Mica lutou contra Satanael, mas Satanael não conseguiu aguentar os golpes da espada de fogo de Deus. Mica derrubou Satanael do seu trono e expulsou todos os seus anjos. Eles foram rolando os nove degraus da escada do céu até caírem na Terra.
Mica voltou para perto do trono de Deus. Todos os anjos se reuniram, curiosos para ouvir o que Mica tinha para contar. Então Deus disse: “Satanael não é mais digno de trazer em seu nome as letras sagradas. A partir de hoje seja o seu nome Satanás. E tu, Mica, a partir de hoje teu nome será Micael e teu lugar será perto do meu trono.” Desde então estão perto do trono de Deus: Gabriel, Rafael, Uriel e Micael.
Os anjos que caíram na terra procuram convencer os homens a se afastarem de Deus e adorarem a Satanás. Mas Micael nos ajuda e nos chama para segui-lo. Em nosso coração podemos encontrar a coragem para lutar contra o mal e também a coragem para servir ao bem.

João F. Torunsky

Conto: O reino dos nove ventos

Um rei tinha três filhos. Quando o primeiro chegou na idade de se casar, o rei o enviou ao reino dos nove ventos para procurar a princesa da luz.
O príncipe mais velho se vestiu com suas roupas mais bonitas e se pôs a caminho. O caminho era longo, e depois de nove meses ele chegou a um rio. Na margem do rio havia um guardião e o príncipe lhe perguntou onde ficava o reino dos nove ventos. O guardião respondeu-lhe dizendo que ele precisaria nadar até a outra margem e então continuar o caminho. A correnteza do rio era muito forte e o príncipe teve medo. Achou melhor voltar para casa e ficar solteiro.
Quando o segundo príncipe chegou na idade de casar, também foi enviado ao reino dos nove ventos para procurar a princesa da luz. Depois de nove meses, ele chegou ao rio e o guardião indicou o caminho do outro lado. O príncipe tomou toda a coragem que tinha, pulou na água e pôs-se a nadar. O rio era muito argiloso e quanto mais ele nadava, mais barro ficava grudado em seu corpo e ele foi ficando cada vez mais pesado. Ele então, precisou de todas as suas forças para conseguir chegar na outra margem.
Ao chegar do outro lado, tentou tirar o barro do corpo, mas não era possível. O barro estava grudado em seu corpo tal como uma armadura. E assim ele continuou o caminho encontrando outras pessoas. Por causa do barro que revestia o seu corpo, as pessoas não reconheceram que ele era um príncipe, mas as outras pessoas também tinham uma armadura de barro e ele também não reconheceu que eram príncipes.
Ele então perguntou qual era o caminho que levava ao reino dos nove ventos. Eles indicaram o caminho, mas logo avisaram que ninguém conseguira chegar lá, pois um muro de fogo separava o reino do barro do reino dos nove ventos.
O príncipe seguiu o caminho e chegou ao muro de fogo. Quanto mais ele se aproximava, mais quente ficava, ele teve medo e não prosseguiu. Como não era possível nadar de volta por causa da armadura de barro, ele ficou por lá, vivendo com os outros príncipes, sem que pudessem se reconhecer.
Quando o terceiro filho do rei chegou na idade de casar, ele seguiu por nove meses até o rio, como seus irmãos. Encontrou o guardião, pulou no rio e nadou até o outro lado ficando coberto de barro, e seguiu o caminho até chegar no muro de fogo, como seu segundo irmão.
Com toda a sua coragem ele se aproximou das chamas, ficou quente e cada vez mais quente, mas passo a passo ele seguiu em frente. E então percebeu que na realidade a armadura de barro o protegia das chamas. Ele entrou no meio do fogo, não enxergando mais nada, e sem hesitar foi dando um passo depois do outro.
Devagarinho as chamas diminuíram e ele chegou do outro lado do muro de fogo, no reino dos nove ventos. A princesa da luz estava lá, esperando por ele, ao lado do guardião. Com o calor do fogo a armadura de barro ressecou completamente, começou a trincar e de repente caiu em mil pedaços. Agora a princesa da luz podia reconhecer que ele era o príncipe que ela estava esperando.
A princesa tomou a mão do príncipe e o guardião os guiou pelo caminho até o reino de seu pai. Eles se casaram e viveram felizes para sempre.

João F. Torunsky

Conto: A Fortaleza de Pedra

Hasan morava em um oásis, nas margens do Grande Deserto. Por ali passavam muitas caravanas que cruzavam o deserto. Os viajantes aproveitavam para descansar e beber a fresca água que brotava num manancial, no centro do oásis. Hasan havia construído uma modesta casa de pedra naquele lugar. Quando chegavam as caravanas, Hasan ia ter com eles e lhes oferecia queijo feito com o leite de suas cabras e deliciosas tâmaras, que ele mesmo colhia nas altas tamareiras que lá cresciam. Com o dinheiro que recebia pela venda desses alimentos, ele sempre comprava algo dentre as tão variadas mercadorias que os comerciantes das caravanas traziam. Hasan começou, então, a acumular tantos objetos, tecidos e mercadorias raras que decidiu montar um pequeno bazar em sua casa de pedra. Com o tempo, junto com a venda de seus queijos e tâmaras, Hasan passou a vender muitas outras coisas e se tornou um comerciante bem-sucedido, pois os viajantes visitavam com muito interesse seu bazar e compravam coisas ou simplesmente trocavam por outras mercadorias, que eles mesmos traziam em suas caravanas. Hasan sabia fazer bem este ofício, e foi ficando cada vez mais rico. Aumentou sua casa, erguendo novas paredes de pedra para construir outros cômodos. Era o próprio Hasan que construía as paredes e os muros, recolhendo as pedras soltas que rolavam do alto de um grande paredão rochoso, nas proximidades do oásis. Hasan teve um dia a idéia de ampliar os muros de sua residência, até circundar completamente o manancial; deste modo ele passou a vender também a água aos viajantes. Em pouco tempo Hasan se tornou um riquíssimo comerciante, seu bazar havia crescido e ocupava vários cômodos da casa. Ele havia juntado muitos baús com moedas de prata e ouro; tudo parecia que andava bem. Entretanto algo começou a acontecer a Hasan. Quando chegava uma caravana ao oásis, no início ele se alegrava, pensando nos bons negócios que faria; mas com o tempo, começou a sentir preocupação: ele cuidava de tudo sozinho e havia tantas pessoas circulando dentro do seu bazar, e se alguém surrupiasse algum objeto? e se alguém achasse num dos cômodos do bazar um dos baús com moedas, que ele havia escondido debaixo de muitas caixas de mercadoria? e se, no meio de tanta gente, alguém simplesmente saísse levando alguma coisa e deixasse de pagar por ela?

Estes pensamentos começaram a preocupar muito Hasan. Ele tinha medo de ser enganado ou roubado. Quando faltavam alguns dias para a chegada de alguma caravana, às vezes, Hasan tinha pesadelos por causa disso. Inicialmente, Hasan decidiu que as pessoas não iriam mais entrar no bazar; colocou uma grande mesa na entrada e as pessoas diziam a ele o que queriam e ele ia buscar a mercadoria no interior da loja. Por este motivo, ele só conseguia atender um cliente de cada vez e isso gerava uma longa espera para os demais clientes. Apesar dessas mudanças, Hasan continuava preocupado. Decidiu construir com as pedras um alto muro, que circundava toda sua casa, com um único e grande portão de madeira. Hasan abria uma pequena janelinha no portão, quando os clientes batiam, e os atendia desta maneira. As pessoas reclamavam e insistiam que gostariam de entrar para poder ver as mercadorias tão especiais que Hasan guardava em sua loja, mas ele era irredutível e não abria o portão a ninguém.

Algumas caravanas às vezes armavam suas tendas no oásis para pernoitar ali antes de prosseguir viagem no dia seguinte. Nessas noites Hasan não conseguia dormir, por causa de sua grande insegurança e medo de ser roubado. Passava toda a noite acordado, vigiando se alguma pessoa colocaria uma escada ao lado do muro para escalá-lo e entrar em sua propriedade. Isto nunca aconteceu, mas, ainda assim, Hasan não ficava sossegado. Por fim teve a ideia de prosseguir colocando fileiras de pedras sobre o muro, em círculos cada vez mais estreitos, de modo que edificou sobre sua casa, sobre seu bazar e sobre o manancial uma grande cúpula de pedra, parecida com um iglu de gelo. Decidiu também fechar com pedras o lugar do portão. Cavou um túnel secreto por debaixo do muro, cuja saída ele escondia com galhos e ramos das palmeiras. Essa era a única possibilidade de entrar ou sair da fortaleza de Hasan. Quando chegavam as caravanas, ele recebia as pessoas do lado de fora, bem distante da entrada secreta do túnel; perguntava o que necessitavam e corria até o interior, trazia o que havia sido solicitado, recebia o pagamento correspondente e, rapidamente, desaparecia sem que ninguém soubesse por onde ele entrava e saia da fortaleza de pedra. Por um tempo, Hasan ficou mais tranquilo, mas novamente vieram as preocupações: se um dia alguém descobrisse o túnel secreto e entrasse em sua propriedade? Este pensamento não dava sossego ao pobre homem. Hasan decidiu então recolher inúmeras pedras e começou a empedrar o chão do terreno em volta da casa. Ele socava as pedras com muita força contra o chão, para impedir qualquer pessoa de escavar outro túnel e aparecer sorrateiramente lá dentro. Decidiu também encher o túnel secreto de pedras; afinal, ele possuía tudo que precisava no interior da fortaleza; havia acumulado muitos alimentos, tinha ainda suas cabras que lhe davam leite e queijo e o manancial lhe fornecia água fresca; não precisava sair e ninguém podia entrar. Parecia que, enfim, Hasan encontrava sossego! Contudo algo novo aconteceu. Hasan havia socado tantas pedras no solo e as havia colocado até bem próximo do manancial de água fresca, que um dia o manancial secou. O peso e a pressão das pedras não deixavam a água subir à superfície! Na escuridão do interior da fortaleza de pedra, as cabras morreram de sede. Somente neste momento, Hasan, caindo em si, e disse: “Meu Deus! Eu tinha tanto medo que as pessoas me enganassem, que roubassem minhas coisas. Eu fiz todo o possível para mantê-las bem afastadas, mas somente agora percebo que eu fui o maior ladrão de todos! Eu me roubei a luz do sol, pois esta cúpula de pedra deixa tudo escuro aqui dentro. Eu me roubei a fresca brisa, pois estes muros de pedra não deixam entrar vento algum. Eu me roubei a água fresca, que jorrava abundante no manancial e agora secou, soterrada pelas pesadas pedras. Eu também me roubei o convívio com as pessoas, as conversas, o riso, a possibilidade de sentar junto com amigos em volta de uma fogueira e observar as belas estrelas numa noite sem luar… Hasan ficou tão triste que decidiu, naquele momento, começar a derrubar os muros de sua fortaleza prisão. Começou retirando a pedras do alto da cúpula e, quando já havia feito uma abertura grande o suficiente para deixar passar sua cabeça, Hasan olhou para fora. Naquele exato momento, nascia o sol no horizonte. Foi uma grande alegria! Hasan estava tão contente que disse em voz alta: “Sol, tua luz me enche de vida e alegria! Eu nunca mais vou roubar aos meus olhos teus raios dourados!” Naquele instante, se aproximava uma caravana do oásis. Do alto Hasan gritou: “Amigos, querem me ajudar a desmanchar esta prisão de pedra que construí? Ajudem-me, pois quero receber todos vocês em minha casa!” Aqueles viajantes conheciam Hasan de outros tempos. Ficaram surpreso ao ouvir aquilo. Imediatamente, várias pessoas começaram a subir nas paredes de pedra e ajudaram Hasan a desmanchar a cúpula. Outros ajudaram a abrir de novo a abertura do grande portão. A casa de Hasan se encheu de luz, de vozes e de alegria. Naquele dia, Hasan não vendeu nada. Ele presenteou as pessoas com o que elas quisessem levar, pois elas o ajudaram a se libertar da prisão que ele mesmo havia construído. Antes de partirem, algumas pessoas ainda ajudaram Hasan a retirar as pedras em volta do manancial. Foi um trabalho árduo, mas eles conseguiram e a água fresca tornou a jorrar. Se antes Hasan havia conseguido fazer boas vendas e bons negócios, a partir daquele dia seu bazar passou a fazer mais sucesso ainda. Caravanas de lugares muito distantes vinham até o oásis para visitar Hasan e seu famoso bazar. Hasan oferecia a todos água fresca e deliciosas tâmaras, sem nada cobrar. As pessoas entravam e saiam dos muitos cômodos de sua loja e ele não se preocupava mais que pudesse ser enganado. De fato, ninguém o enganava ou surrupiava algo do bazar. Todos sabiam que Hasan havia se transformado numa pessoa boa, generosa e alegre. Sua simpatia em receber as pessoas em sua casa era tanta que, ao contrário, vários comerciantes acabavam deixando muitos presentes para Hasan em sua loja, pois haviam se sentido bem acolhidos ali.

Daquele dia em diante, Hasan passou a acordar todos os dias bem cedo, antes do amanhecer, para poder ver o nascer do sol e assim cumprir a promessa que havia feito a si mesmo: Nunca mais se permitir roubar a seus olhos os dourados raios do sol!

Renato Gomes

Conto: O pão da vida

Era uma vez um menino que se chamava Pedro. Ele nasceu e morava em uma cidade grande. Pedro conhecia muito bem a cidade pois ele e seus amigos sempre brincavam na rua. Por isso ele conhecia todos os caminhos secretos e os melhores lugares para brincar. Também conhecia os sons da cidade, eles eram diferentes durante o dia e a noite.
Pedro tinha uma avó, e de vez em quando, ele e sua família a visitavam. Ela morava numa pequena aldeia no campo. Essas visitas sempre eram uma festa para Pedro, porque a aldeia era tão diferente da cidade grande e sempre tinha novos segredos a serem descobertos. A aldeia parecia viver em outro tempo, pois as pessoas que ali viviam eram como artesãos, faziam tudo com as próprias mãos. Tudo era feito da mesma forma como seus ancestrais. Também as casas eram bem antigas e muito diferentes das casas da cidade. Afinal tudo era novidade para Pedro: os cheiros, os sons e as pessoas. E disso ele gostava muito!
Logo que ele chegava na aldeia, sempre corria de cá para lá querendo descobrir todos os segredos e milagres que ele ainda não conhecia.
Foi assim, que um dia, descobriu o ferreiro da cidade, ele ainda produzia todas as ferramentas que eram necessárias para as atividades das pessoas. Pedro jamais esqueceu o cheiro do fogo, a cor vermelha e branca da brasa e o som do martelo do ferreiro quando batia na bigorna. Para ele era um milagre como o ferreiro conseguia formar o ferro incandescente com o martelo.
Um dia ele entrou na padaria e ficou parado num canto sem se mexer. Primeiro ele sentiu os cheiros maravilhosos: da massa, do pão fresco e do fogo. Depois ele percebeu que estava bem quente e um pouco úmido dentro da padaria. Ele ficou em silêncio observando como o padeiro separava a massa e moldava os pães. O padeiro deixou a massa para crescer na mesa enquanto ele fazia outras coisas. Depois de passado um tempo ele voltou e fez, com uma faca, uma cruz em cada pão. Só então eles foram para o forno. O cheiro do pão estava tão maravilhoso que Pedro mal podia se conter no seu canto. Depois de um tempo os pães foram retirados do forno e ficaram na mesa para esfriar. Pedro viu como eles tinham crescido e, que a cruz que o padeiro havia feito abriu. Os pães eram maravilhosos!
Pedro não conseguia mais ficar quietinho. Ele pediu um pão, deu todas as moedas que ele tinha no bolso e correu com o pão de volta para a casa da avó. Quando lá chegou, a família já estava preparando o jantar. Só então percebeu como o tempo voou. Colocaram tudo na mesa e a avó pegou o pão para cortá-lo. Mas, antes ela fez o sinal da cruz em cima do pão. Pedro viu isso e se lembrou da cruz do padeiro, e se perguntou: “Porque será que eles fizeram isso?”
Ele era muito curioso. Comeu pouco do pão, pois logo ficou satisfeito.
Depois do jantar eles se sentaram em volta da lareira, como era o costume na casa da avó. Normalmente ela contava uma estória. Mas nesse dia, Pedro aproveitou o momento e perguntou: “Vovó! Porque você fez a cruz em cima do pão?” Ela olhou para ele e falou: “Vou te contar!” Ela pegou a bíblia e começou a ler: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede.” “Para ter essas forças do Cristo no pão, faço a cruz” ela concluiu.
Pedro estava muito satisfeito com a resposta por que ele tinha a sensação de ter descoberto um novo segredo.

Julian Rögge

Conto: O cavalo e o abismo

Um rei tinha três filhos, quando o mais velho chegou na idade de casar, pediu ao pai sua permissão para procurar a princesa no reino da luz. O pai permitiu e o filho mais velho pegou sua mochila e seu cajado, e seguiu seu caminho procurando a Vera Sofia.
Depois de algum tempo ele chegou à beira de um abismo. Do outro lado do abismo o caminho continuava, mas ele sabia que nunca conseguiria pular para o outro lado.
Próximo do lugar onde ele estava, havia uma casinha e ao lado um cavalo pastando. Ele seguiu até a casinha e bateu à porta. Tornou a bater e, como ninguém respondia, ele foi abrindo a porta bem devagar. A casa estava vazia e no meio da sala estavam os arreios e a sela do cavalo. O príncipe então teve uma ideia. Com aquele cavalo ele poderia pular para o outro lado do abismo.
Ele pegou os arreios e a sela, foi buscar o cavalo, e depois de arreá-lo, o montou. O cavalo começou a pular, a correr, a empinar e, não demorou muito, o príncipe foi jogado no chão, quebrando uma perna. Com muita dificuldade ele voltou para casa e contou seu azar aos irmãos.
Não demorou muito, o segundo príncipe quis tentar também a sua sorte. Também ele chegou até o abismo e encontrou a casinha, o cavalo, os arreios e a sela.
Ele arreou o cavalo, mas antes de montar disse: “- Eu não sou tão burro quanto o meu irmão”. Pegou a sua mochila e retirou o que tinha trazido: um chicote e esporas. Com as esporas nos pés e o chicote na mão montou o cavalo. Quando o cavalo começou a pular bateu no cavalo com o chicote e o machucou com as esporas, até que o cavalo parou de pular e começou a fazer o que ele queria.
Com o sentimento de vitória cavalgou a uma certa distância se afastando do abismo, virou o cavalo, bateu com toda a força no cavalo com o chicote, fincou as esporas e o cavalo começou a correr o mais rápido que podia em direção ao abismo. O príncipe se preparou para pular o abismo e quando chegaram na beira, com o príncipe já dando o impulso para pular, o cavalo travou as patas dianteiras jogando o príncipe num salto para dentro do abismo.
Ele teria morrido se não tivesse a sorte de se agarrar em uma árvore que crescia no penhasco e, com muita dificuldade, conseguiu subir, voltar para casa e contar aos seus irmãos o seu azar.
Não demorou muito, o irmão caçula quis tentar a sua sorte. Também ele chegou até o abismo e encontrou a casinha, o cavalo, os arreios e a sela. Ele entrou na casinha, abriu a janela, acendeu o fogão, tirou da sua mochila um cobertor e a comida, cozinhou seu jantar, fez a cama e dormiu.
No dia seguinte, ele cortou um pouco de grama, foi buscar o cavalo, deu água e comida para ele, pegou da sua mochila uma escova e começou a escovar o cavalo, o que o cavalo achou muito agradável. Ele falava com o cavalo, passava a mão em seu pescoço, deixava o cavalo cheirar a sua mão. Isto ele fez por toda uma semana.
Na segunda semana ele pegou os arreios e a sela, arreou o cavalo e o levou para passear, puxando-o pelas rédeas atrás dele.
Na terceira semana ele começou a sentar-se na sela e a cavalgar. E logo já estava saindo para galopar pelos campos. Toda vez que o príncipe saia da casinha, o cavalo já vinha até ele e o empurrava com o focinho, querendo cavalgar com ele.
Na quarta semana ele começou a exercitar com o cavalo a saltar por sobre troncos de árvores caídas, por pedras grandes e por buracos cada vez maiores.
Já fazia um mês que o caçula havia saído de casa. Os irmãos pensavam que ele tivesse morrido no abismo. Mas quando completou um mês, ele pegou a sua mochila, apagou o fogo do fogão, fechou as janelas e a porta da casinha, montou no cavalo, tomou distância do abismo, acariciou o pescoço do cavalo e sussurrou no seu ouvido: “Vamos meu amigo”.
O cavalo começou a galopar, sempre mais rápido e quando chegou na beira do abismo deu um pulo majestoso chegando até o outro lado.
O príncipe parou o cavalo, acariciou o seu pescoço, olhou por um momento para trás, para o outro lado do abismo, voltou-se para a frente e seguiu cavalgando até o castelo da princesa.
E eles se casaram e viveram muito felizes.

João F. Torunsky

Conto: Escutar com o coração

Quando Deus criou a terra e os homens, todos falavam a mesma língua e todos se entendiam. Todos trabalhavam e viviam juntos e procuravam ajudar uns aos outros. Os anjos, quase todos, estavam muito contentes de como os homens viviam. Quase todos os anjos, porque havia um anjo escuro que não estava contente. Ele era escuro porque havia se afastado da luz de Deus. E como ele havia se afastado da luz de Deus, ele não gostava mais da paz, mas da briga entre os homens. Este anjo escuro ficou pensando como ele poderia fazer para semear briga entre os homens e acabar com a paz. Ele ficou pensando e ele pensava muito bem. E assim ele teve uma ideia. Ele notou que naquela época as pessoas pensavam o que elas queriam falar e só depois falavam, assim como nós. Mas, quando elas escutavam uma outra pessoa falar elas paravam de pensar, somente escutavam o que a outra pessoa falava e só depois de escutar, elas pensavam sobre o que a outra pessoa falara. E assim elas se entendiam muito bem.
O anjo escuro esperou vir a noite e tocou no ouvido das pessoas. Desde então, as pessoas não paravam de pensar enquanto o outro falava. E, ao mesmo tempo que ouviam o que outro falava, ouviam aquilo que elas próprias pensavam. E todo mundo sabe como é difícil entender alguma coisa quando duas pessoas estão falando ao mesmo tempo. E assim aconteceu que cada vez mais um não compreendia o outro. As pessoas começaram a brigar e até mudaram para outro lugar. Acabaram falando uma outra língua e ficou cada vez mais difícil um entender o outro. E assim, o perigo foi aumentando, até que não havia mais ninguém que conseguia entender o outro, e as brigas se espalharam pelo mundo todo.
E exatamente quando esse perigo estava muito grande, que nasceu Jesus na Terra. Quase ninguém percebeu que ele havia nascido, só os pastores, os reis e mais algumas pessoas. Todos os dias Maria pegava o menino Jesus do berço, dava-lhe de mamar e ficava balançando-o nos braços, bem juntinho do coração, até ele dormir.
No princípio Maria começou a sentir algo que ela mesma não compreendia. Mas com o tempo ficou nítido o que estava acontecendo. Maria tinha dificuldade de entender José, porque enquanto ele falava, ela escutava ao mesmo tempo o que ela mesma pensava. Porém, quando tinha o menino Jesus no peito, começou a perceber que entendia muito melhor o que José falava. E, com o passar do tempo, percebia também que isso acontecia porque ela não o escutava apenas com o ouvido, mas também com o coração. E com o coração ela conseguia realmente escutar o que José estava querendo dizer.
No início, isto só acontecia quando ela tinha o menino Jesus no colo, mas com o tempo ela começou a escutar mais e melhor com o coração.
O feitiço que o anjo escuro colocou em nossos ouvidos continua lá. Mas desde o nascimento de Jesus, todos nós podemos aprender sempre mais a realmente escutar com o coração. Aprender a realmente entender o outro, para que no lugar de tanta briga, sempre haja cada vez mais paz.

João F. Torunsky

Conto: A fazenda no deserto

Ebraim era um garoto muito esperto que vivia na beira do deserto. Ele sempre sonhava que um dia ele seria um fazendeiro. Ele queria ter uma fazenda com árvores de frutas, flores e vacas.
Quando ele contava isso para os seus amigos, todos riam dele, pois no deserto não é possível ter uma fazenda. E quando ele contava seu sonho para seus pais, eles procuravam consolar Ebraim e convencê-lo que o melhor seria ele se tornar um pastor de cabras, como seu pai.
Quando Ebraim se tornou um jovem, ele decidiu atravessar o deserto para ver se em alguma parte do deserto ele encontraria um lugar para formar a sua fazenda. Ele pegou a sua mochila com algo para comer e água para beber, se despediu dos pais e dos amigos, e começou sua caminhada para atravessar o deserto. Tristes, todos olharam como ele desapareceu no horizonte, e sua mãe chorou convicta de que ele não sobreviveria e que ela, assim, nunca mais iria vê-lo.
Por muitos dias Ebraim prosseguiu no seu caminho. Durante o dia o sol parecia querer assá-lo, durante a noite, ele sofria com o frio. A comida que ele levara consigo acabou, e a água também. Ele começou a pensar que realmente morreria.
Mas quando já estava tão fraco que ele quase não conseguia mais andar, ele avistou uma palmeira no horizonte. Com as últimas forças que tinha, ele caminhou até lá e chegou a um oásis. Havia lá três palmeiras de tâmaras e o chão entre as tamareiras estava úmido e se formou uma pequena poça d’água, suficiente para ele beber. As tâmaras que ele achou no chão, ele comeu e dormiu sob as sombras das tamareiras.
Ele dormiu até o outro dia e acordou disposto. Comeu tâmaras, bebeu da poça e ficou pensando no que fazer. Primeiro ele cavou para que a poça ficasse mais funda. Quanto mais ele cavava, mais água surgia. Não demorou muito e ela havia se tornado um laguinho profundo, com mais água do que ele precisava. Das folhas velhas das tamareiras ele fez uma cabaninha e lá ficou morando. A cabaninha não ficava ao lado do laguinho. Assim ele tinha que levar a água do laguinho até a cabaninha e sempre caia um pouco de água pelo caminho.
Um dia, quando ele levantou, ele viu com espanto que o caminho estava cheio de folhinhas verdes. Sementes que estavam escondidas na areia haviam brotado com a água que ele havia derramado no caminho. Quando ele percebeu que no deserto existem sementes escondidas, começou a regar em volta do laguinho e em volta do oásis. E quanto mais ele regava, tanto mais verde surgia. Não demorou muito e apareceram as primeiras flores. Ele continuou cavando o laguinho e fez um poço bem profundo, que lhe dava muita água.
Ebraim já vivia algum tempo lá, tinha água, se alimentava de tâmaras e de algumas plantas que lá haviam crescido. Ele melhorou a cabaninha o melhor que pôde e o seu oásis era pequeno mas lindo, verde e com flores.
Um dia ele avistou no horizonte três camelos que se aproximavam em uma pequena caravana. Quando eles chegaram, Ebraim percebeu que os homens que montavam os camelos estavam amarrados nas celas, dependurados, quase mortos de sede. Ele segurou os camelos, que atraídos pela água tinha encontrado o oásis, baixou os animais e soltou os homens das celas. Deixou os camelos beberem e deu água aos homens, de gota em gota.
Demorou algum tempo até que os homens voltaram a si e contaram para Ebraim que eles tinham se perdido no deserto e, como estavam quase morrendo de sede, tinham se amarrado nos camelos e deixado os animais soltos na esperança de que eles encontrassem um oásis. Ebraim cuidou deles. Deu água e tâmaras para eles. Mas eles tinham também muitas coisas consigo para comer e só lhes faltava água.
Muito gratos, eles deram algumas moedas de ouro para Ebraim, um saco de grãos de trigo, algumas ferramentas, um balde, panelas, e outras coisas. Eles partiram e agora Ebraim começou a fazer valetas onde a água podia correr e formar um campo que podia regar, e plantou o trigo.
Não demorou muito tempo e uma outra caravana veio. Não vieram por acaso. Tinha ouvido falar pelos outros que havia este pequeno oásis no deserto com seu dono tão amável. E assim, o oásis de Ebraim se tornou um ponto de parada de muitas caravanas. Ele comprava alimentos de alguns e vendia para outros. Comprava mudas de plantas e árvores e assim foi aumentando o seu oásis. Construiu uma casa e depois de um ano colheu sua primeira safra de trigo.
Tornou-se um lugar tão gostoso que outros quiseram morar lá e ajudar ele com o trabalho. Depois de algum tempo Ebraim comprou até uma vaca. Com o estrume da vaca ele fazia composto e adubava a terra do deserto. E assim ele realizou o seu sonho de ter uma fazenda, no meio do deserto. Hoje esta fazenda é muito grande, com centenas de tamareiras, campos de trigo, muitas vacas, árvores e flores.
De Ebraim podemos aprender que de um deserto é possível fazer uma fazenda.
João F. Torunsky

Conto: O pastor e o dragão

Certo dia, em um reino próximo daqui, apareceu um dragão. Ele foi morar no fundo de um lago profundo. Quando as pessoas passavam pelo lago viam bolhas que subiam à tona com um fedor horrível de ovo podre. De tempos em tempos o dragão sentia fome e saía do lago, devorando tudo que encontrava vivo a sua frente, pisando tudo com suas patas e queimando tudo com o sopro de fogo que saia de sua boca que fedia a ovo podre.
O rei havia enviado os seus soldados para matar o dragão, mas a metade morreu na luta e a outra metade voltou com as costas queimadas pelo fogo que o dragão havia lançado quando eles tentavam fugir.
O rei reconheceu que só um cavaleiro muito valente poderia vencer o dragão. Mas ele já era velho e só tinha uma filha. Então o rei mandou anunciar no seu reino que o cavaleiro valente que conseguisse matar o dragão receberia sua filha como esposa e todo o seu reino depois da sua morte.
Mas no reino não havia nenhum cavaleiro valente. Como a princesa era linda e o reino era enorme, um camponês decidiu tentar a sua sorte.
Ele vestiu as suas roupas de domingo e foi falar com o rei. O rei o olhou de cima a baixo e estranhou a postura dele. Parecia mais um camponês do que um cavaleiro. O rei então perguntou: “Você é mesmo um cavaleiro?”. E o camponês respondeu: “Com certeza, meu rei”. E tornou a perguntar o rei: “Onde está tua armadura?”. Ao que respondeu o camponês: “Em casa meu rei, não queria me apresentar de armadura perante vossa majestade”.
O rei coçou a barba, hesitou um pouco, mas como não tinha outra solução, disse: “Vai até a tua casa, veste a tua armadura e vença esse dragão infernal”.
O camponês foi para casa, tirou a roupa de domingo, vestiu a calça de couro e o casaco de linho que usava no campo, pegou a foice e foi lutar contra o dragão. Nunca mais se viu o camponês. Outros camponeses tentaram a mesma sorte, mas também foram devorados pelo dragão.
Um dia a princesa foi caminhar pelos pastos verdes onde gostava de ver as ovelhas. Um pastor muito jovem estava cuidando das ovelhas e, quando viu a princesa, em toda sua beleza e ao mesmo tempo com toda a simplicidade, seu coração começou a bater mais forte e seu rosto ficou todo vermelho.
Ele se aproximou da princesa e quando ela olhou em seus olhos também sua face corou. Ele viu como ela estava triste e perguntou o porquê. Ela então contou-lhe sobre o dragão, e que só um cavaleiro muito valente poderia vencer aquele monstro, mas em todo o reino não se podia encontrar nenhum tão valente.
No dia seguinte o jovem pastor vestiu a sua roupa de domingo e foi falar com o rei. O rei olhou-o de cima a baixo, estranhou a postura dele, que parecia mais a de um pastor do que de um cavaleiro e perguntou: “Você é realmente um cavaleiro?”. E o jovem pastor respondeu: “Não, meu rei, eu sou somente um jovem pastor, quero me colocar a seu serviço, estou disposto a morrer, mas quero tentar vencer o dragão.
O rei coçou a barba, hesitou um pouco e disse: “Como você falou a verdade, eu te darei a minha armadura. Estou velho demais para lutar com ela, mas com a minha armadura e com a tua coragem, eu confio que você vai vencer o dragão”.
O jovem pastor vestiu a armadura do rei e foi até o lago esperar o dragão. Não demorou muito e ele apareceu. Foi uma luta terrível, mas o jovem pastor venceu, e o dragão afundou morto no lago para sempre.
A festa do casamento foi imensa, eles viveram muitos anos felizes e o jovem pastor tornou-se um rei muito justo.

João F. Torunsky

Conto: Os dois irmãos gêmeos

Um rei e uma rainha desejavam há muito tempo ter um filho. A alegria deles foi imensa, quando um dia a rainha teve a esperança de dar à luz uma criança. Eles tiveram que esperar bastante tempo, mas quando a lua pela décima vez ficou cheia, chegou a hora do parto.
Nasceu um menino que, mesmo recém-nascido, já se podia ver que era muito lindo. O rei ficou maravilhado e alegre. Mas a parteira disse: “Está vindo mais um”, pois eram gêmeos, que a rainha estava dando à luz. Quando o segundo menino nasceu, a parteira ficou muda, o seu rosto ficou pálido e ela tentou esconder a criança com um pano.
O rei quis ver seu segundo filho, e quando a parteira o mostrou ele ficou horrorizado de tão feio que o menino era. O rei embrulhou o recém-nascido no pano e, sem mostrá-lo à rainha, levou o menino para fora do quarto, chamou seu caçador mais fiel e mandou levar a criança para a floresta e matá-la. O caçador pegou o pequenino embrulhado no pano e foi até a floresta. Quando ele desembrulhou a criança ficou muito chocado, de quão feia ela era. Mas quando olhou nos olhos do menino viu um brilho como de duas estrelas nas trevas da noite. Enquanto ele olhava o brilho das estrelas nos olhos do menino, a criança começou a sorrir e o coração do caçador se preencheu de tanto calor que ele não teve a maldade de matar a criança. O caçador embrulhou o menino de novo no pano e caminhou por vários dias, sempre mais para dentro da floresta, até chegar a uma clareira, onde havia uma casinha e onde ele sabia que morava uma velhinha. O caçador bateu à porta, a velhinha abriu, ele a cumprimentou e perguntou se ela poderia cuidar da criança que ele tinha achado no meio do caminho. A velhinha sabia que o caçador estava mentindo. Ela olhou tão sério nos seus olhos que o coração dele quase parou de bater, então sorriu e disse que ficaria com o menino e cuidaria dele como se fosse seu próprio filho. Aliviado o caçador entregou o menino e voltou para o castelo. No castelo o rei e a rainha viviam felizes com o príncipe, que crescia como uma criança muito bela e aprendia tudo o que era necessário para um dia se tornar rei. Na floresta a velhinha também vivia feliz com o menino, que crescia como uma criança feia e aprendia muitas coisas também. Mas como na realidade a velhinha era sábia, ensinou para o menino não as coisas do reino deste lado do abismo, mas as sabedorias do reino do outro lado do abismo. Os anos foram passando. Quando os meninos haviam se tornado jovens, o príncipe que era muito bonito e escutava sempre de todo mundo como era belo, ficou muito vaidoso e o que mais gostava de fazer era olhar-se no espelho e ver o quão bonito ele era. Um dia o rei chamou o príncipe e disse para ele que havia chegado a hora dele casar. Ele tinha que ir ao mundo e procurar a princesa que morava do outro lado do abismo. Isto era tudo o que o rei podia falar para ele. O caminho ele mesmo tinha que encontrar. O príncipe mandou selar o seu cavalo e montou para sair ao mundo à procura da princesa. Na saída do castelo o caçador parou o príncipe e disse-lhe: “Meu príncipe, antes que vás ao mundo tenho que te contar um segredo. Tu tens um irmão gêmeo, mas ao contrário de ti, ele é horrivelmente feio”. E o caçador contou-lhe toda a história. O príncipe começou a rir e disse: “Você está velho e maluco. Esta, só pode ser uma história inventada, uma grande mentira. Se eu tivesse um irmão gêmeo ele seria tão belo quanto eu”. E deu com as esporas no cavalo e se foi cavalgando. Neste mesmo tempo o irmão feio disse para a velhinha sábia: “Mãezinha, eu sei que tenho um irmão gêmeo e sei que ele precisa da minha ajuda. Deixa-me sair ao mundo para procurar por ele!”. A velhinha estava bem de acordo, mas antes de permitir que ele saísse, disse-lhe: “Vai e ajuda teu irmão, mas não se mostre a ele. Pois se ele te visse agora, com o coração cheio de vaidade, ele não suportaria saber que tu és o irmão dele e não aceitaria a tua ajuda. Ajude-o sem que ele te veja. Quando chegar a hora dele te aceitar como irmão, você poderá mostrar a ele o caminho para atravessar o abismo”. O príncipe seguiu cavalgando por muitos anos. Transpassou florestas, andou através de desertos e teve que vencer muitos obstáculos. Ele chegou até a fronteira do seu reino, onde ninguém sabia que ele era um príncipe. Suas roupas tinham ficado sujas e rasgadas, seus cabelos cresciam sobre os ombros e sua barba ocultava a beleza da sua face. Quando ele tinha sede, procurava uma fonte ou um riacho. Quando tinha fome, procurava frutas ou raízes. Quando chegava em uma vila, se oferecia para trabalhar, pois ninguém dava para ele algo para comer, somente pelo fato de ser belo. A vida era difícil, mas ele se sentia com sorte e pensava que ela vinha por acaso. Com o tempo foi percebendo que, mais importante que sua beleza, era sua disposição para trabalhar. E ele aprendeu muito rápido que as pessoas que mais o ajudavam não eram necessariamente as mais belas, mas aquelas que tinham um bom coração. Depois de algum tempo ele teve que vender o seu cavalo e andava a pé. E assim chegou até o reino das neblinas, que é o reino onde está o abismo que separava o lado de cá e o de lá. As neblinas foram ficando cada vez mais densas. O príncipe não conseguia enxergar quase nada, ele tinha que tatear para encontrar o caminho e a neblina foi ficando tão densa que ele não via mais nada. Quando a noite veio ele procurou com as mãos o lugar mais macio no chão e se deitou para dormir. Quando ele se esticou para dormir achou estranho que do lado dele parecia haver um buraco, pois a sua mão não conseguia tatear nada. Mas ele estava tão cansado que adormeceu antes de descobrir que buraco se encontrava ali. Mas não era um buraco, era o abismo. Ele tinha, sem perceber, chegado até o abismo e se deitado ao seu lado. Ele dormiu muito inquieto se virando para lá e para cá. Mas sempre que ele começava a se virar para o lado do abismo, ele acordava como se alguém o sacudisse. Ele sentava no chão assustado, olhava para cá e para lá, mas não via ninguém. Quando o dia veio e a neblina ficou clara, mas, mesmo assim, densa, ele continuou o seu caminho. Ele andava na beira do abismo sem perceber. E toda vez que ele se voltava um pouco para o lado do abismo, ele sentia que uma mão virava o seu rosto para o outro lado, bem suave, como o sopro de uma brisa. Ele olhava para todos os lados, mas não via ninguém. Por vários e vários dias ele foi caminhando assim. Um dia ele se sentou em uma pedra, pois estava muito cansado, com sede e com fome, não sabia como voltar para trás, e ficou pensando na sua vida: na infância linda que teve, na juventude, na sua vaidade, na sua arrogância com o caçador e também como tinha sido seu caminho procurando a princesa. Por um lado, ele estava triste, por tudo que ele havia perdido. Por outro lado, ele estava feliz por ter aprendido que a beleza não tem valor, se ela apenas provoca a vaidade. Que muito mais importante é ter um bom coração. Ele não sabia mais para onde ir, mas estava em paz pensando que provavelmente morreria de fome ali mesmo.
Neste momento a neblina se abriu um pouco, um raio de sol entrou por dentro dela e formou como uma clareira de luz dentro da neblina. Ele estava sentado bem no meio dessa clareira. Ele olhou então ao seu derredor e de repente viu um vulto na neblina vindo em sua direção. Ele levou um susto, se levantou com o coração disparado e o vulto foi ficando cada vez mais nítido e mais próximo. Quando o vulto entrou no espaço de luz, ele reconheceu um homem, mas ficou aterrorizado com a sua aparência. Nunca tinha visto alguém tão feio. E o príncipe perguntou: “Quem é você?” E o homem respondeu: “Sou o teu irmão”. Um calafrio correu o seu corpo. Ele se lembrou então das palavras do caçador. No seu estômago ele sentia um nojo. Mas em seu coração sentia um carinho por esse irmão tão feio. Devagarinho se aproximou de seu irmão. E quando olhou em seus olhos viu um brilho como de duas estrelas no meio da escuridão da noite. E ao olhar para essas estrelas em seus olhos, seu irmão sorriu. E o príncipe então sorriu também. Ele abraçou seu irmão e o beijou na face. E o irmão disse ao príncipe: “Venha, eu vou te guiar até a ponte que nos levará ao outro lado do abismo”. A neblina foi se clareando e o sol brilhava sempre mais. Só agora o príncipe havia percebido que o tempo todo tinha caminhado ao lado do abismo e, sem trocar nenhuma palavra, sabia que seu irmão o tinha protegido todo o tempo. Eles chegaram até a ponte, atravessaram para o outro lado e, não demorou muito, chegaram ao castelo da princesa. Ela esperava por ele junto ao portal. Quando ela viu os dois chegando, perguntou ao príncipe: “Quem é este homem horrível que trazes contigo?”. E ele respondeu: “Este é o meu querido irmão”. Neste momento, toda a feiura do irmão caiu como uma casca seca e ele era, na verdade tão bonito quanto o príncipe.
O príncipe casou-se com a princesa, o seu irmão se casou com a irmã dela e eles viveram felizes por muito tempo.
João F. Torunsky

Conto: O canto do Sabiá

Há muito tempo, vivia um garoto numa vila muito bela. No meio da vila fizeram uma praça e plantaram árvores. Para aquelas árvores, de manhã e à tarde, vinham alguns sabiás, sentavam lá e cantavam. O garoto gostava muito de escutar o canto dos sabiás.
E quando ele escutava um sabiá cantando, ele sentia, em seu coração, uma tranquilidade muito grande, uma paz. No entanto, não só o garoto gostava de escutar o sabiá, todas as pessoas que viviam naquela vila gostavam de escutar o sabiá e sentiam também, no coração, a tranquilidade e a paz. E quando, depois de escutar o sabiá, duas pessoas se encontravam e olhavam uma nos olhos da outra, elas sorriam e sentiam em si o desejo de perguntar como a outra estava e se precisava de alguma ajuda. E assim todos viviam em paz, ajudando um ao outro. E, na vila, ninguém passava fome nas épocas de fartura e, nas épocas de seca ou enchente, eles dividiam com justiça aquilo que tinham uns com os outros.
A vila cresceu, tornou-se uma cidade grande e muitas pessoas foram morar naquela cidade. As pessoas precisavam ir de um lugar para o outro e a cidade se tornou mais barulhenta e as pessoas tinham cada vez menos tempo para escutar o sabiá. E quando, na madrugada, alguém era acordado por um sabiá, ele ficava de mau humor, xingava o sabiá e gritava: não chega o barulho da cidade, este passarinho tem que fazer ainda mais barulho? E alguns começaram até a jogar pedras no sabiá.
O sabiá ficou muito triste e resolveu ir embora daquela cidade e com ele todos os outros sabiás. E, desde então, nenhum sabiá cantava mais lá. Com isso, as pessoas mudaram. Desde que elas, no seu dia a dia, não paravam mais para pegarem um minuto da sua vida a escutar o sabiá, sempre menos elas sentiam a tranquilidade e a paz no coração, sempre menos elas tinham a calma de olhar uma nos olhos da outra e sorrirem, sempre menos elas sentiam o desejo de perguntarem à outra como ela estava e se ela precisava de ajuda. Cada um começou a só se preocupar consigo mesmo, cuidar que tivesse onde morar e o suficiente para comer e, também, escondiam comida para os tempos de seca ou de enchente. E o que aconteceu foi que, agora, nos tempos de fartura, havia pessoas que passavam fome e, no tempo de necessidade, cada um pensava só em si mesmo. As pessoas se sentiam sempre mais infelizes.
O garoto que, na sua infância, gostava tanto de escutar o sabiá, já tinha se tornado um homem. E, também, ele se sentia infeliz, mas, ele percebeu que já, há algum tempo, nenhum sabiá cantava, sentiu saudades do canto do sabiá e resolveu procurar o sabiá. Durante muito tempo, ele teve que andar. Durante o dia, ele caminhava; durante a noite, dormia numa tenda que armava. Numa madrugada, ele foi acordado com o canto do sabiá. Ele se sentou na tenda e, depois de tantos anos, sentiu novamente em seu coração aquela tranquilidade e aquela paz da infância. E, no seu rosto, surgiu aquele sorriso que há tantos anos não sorria. Ele saiu da tenda e, neste momento, o sol estava nascendo. As trevas da noite se afastavam, a luz do sol clareava o dia, uma estrela reluzia no firmamento. E, numa árvore, em sua frente, cantava o sabiá. Neste momento Deus teve compaixão com o homem e deu, para ele, o dom de conversar com o sabiá.
E o sabiá perguntou para ele:
– “Por que tu me procuras?”.
E o homem disse:
– “Desde que tu foste embora e não mais cantaste em nossa cidade, sempre mais desapareceu o amor entre as pessoas e a nossa vida se tornou desolada e vazia”.
O sabiá respondeu:
– “Eu não canto só por cantar. O meu canto é a minha forma de orar para Deus. Na realidade, as pessoas me expulsaram da tua cidade porque elas não pensam em Deus, mas só em si mesmas.”
E o homem disse:
– “Voltai comigo, por favor, para a minha cidade. E ensina-nos, de novo, a orar para Deus. ”
O sabiá não respondeu e voou embora.
O homem, decepcionado, pegou o caminho de volta para a sua cidade. Mas já na próxima noite em que ele dormiu na sua tenda, na madrugada ele foi acordado pelo sabiá. E assim, em todas as madrugadas, até ele chegar à sua cidade.
Desde então, naquela cidade, cantam novamente os sabiás.
O homem construiu uma igreja, com um sino, para que, de novo, aqueles que aprenderam do sabiá a rezar pudessem se reunir nos domingos. Toda vez que o sabiá cantava eles se alegravam e toda vez que o sino tocava alegravam-se os sabiás.
E assim, sempre mais pessoas passavam de novo a sentir em seus corações tranquilidade e paz, sempre mais as pessoas olhavam nos olhos das outras, sorriam e perguntavam como o outro estava e se precisava de ajuda.
João F. Torunsky